A chamada vem de dentro de casa


Aqui há tempos o Noam Chomsky proferiu a sentença, bombástica mas adequada, que a organização mais perigosa do mundo não é o ISIS, a SPECTRE ou a HYDRA — é o Partido Republicano. O partido de Lincoln e dos direitos civis é hoje o partido anti-ciência, do xenofobismo, do fundamentalismo religioso… Com, argumenta Chomsky, riscos existenciais para a espécie humana como nunca foram vistos fora do enredo dum filme do 007 (OK, a segunda parte é minha).

Portanto, a investida da extrema-direita não veio de uma força exterior, dum terceiro partido… — veio do interior, da própria base do partido.

É bom termos isto tudo em conta antes de continuarmos a congratular-nos pela pouca expressão que a extrema-direita vai tendo em Portugal. Os EUA, como em muitas outras coisas, são um bom indicador de tendências latentes, como o proverbial canário da mina.

Dividido entre um ciclo eleitoral desfavorável e o seu esvaziamento político pelo topo, o PSD parece hoje especialmente exposto ao tipo de populismo demagógico que fez do Partido Republicano uma quadrilha de insurgentes radicais. Da maneira como as coisas vão correndo ao PSD, basta que esta linha se afigure como uma tábua de salvação para começarmos a ver mais Venturas. Já o andaram a ensaiar, por exemplo, com o caso dos suicídios de Pedrógão ou da contagem de mortos (em que fabricaram uma suspeita de conspiração para ocultar os números reais); era só uma questão de tempo até surgirem candidatos a cortejarem o eleitorado abertamente racista (vide Ventura). Isto só é possível num clima social, quer gostemos de o admitir ou não, em que ideias tipicamente de extrema-direita têm cada vez mais expressão. Ainda para mais se estas ideias não são incompatíveis com o projecto do PSD, mais antigo, de desmantelar o que resta do estado social.

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