A Palavra Começada Por F


Símbolo máximo de honestidade intelectual, o jornalista e opinador profissional João Miguel Tavares não pôde deixar passar com impunidade a prepotência juvenil duma associação de estudantes que teve a temeridade de travar o colóquio do Jaime Nogueira Pinto. Entretanto, diz que a história estava mal contada, a bem dizer contada completamente ao contrário.

Confrontado com novos dados, o que faz o JMT (que nesta altura já se está a tornar uma pet peeve minha)? Revê a sua opinião para acomodar os novos factos? Ná. Perante isto, o JMT escolhe escrever um novo texto em que se chora por o terem apelidado de fascista¹ nos comentários dum site (bem vindo à internet, JMT), enquanto se entrincheira na tese que tinha construido a priori e a qual, esperava ele, este episódio vinha confirmar. O que demonstra que para ele (e outros) os particulares desta história interessavam pouco — o importante era somar argumentos, factuais ou não, que pudessem reforçar a sua posição.

Curioso que um gajo tão avesso a trigger warnings seja tão facilmente despoletado por uma simples palavra. E que a ironia lhe passe tão ao lado. Mas mais irónica ainda é esta platitude com que encerra o artigo: “enquanto as convicções de uns continuarem a ser consideradas moralmente superiores às dos outros, nunca seremos uma democracia a sério”. Isto vindo de quem, há dias, escrevia um texto sobre o mesmo assunto com o inspirado título “Vinte e quatro palermas e um director medroso”, é praticamente a definição não-Morissettiana da palavra “irónico”.

Na sua febre de ver sovietes em todo o lado, dispara para todos os lados — e acerta na Constituição. É evidente o seu desconforto em viver num país cuja Constituição tem nas suas linhas a objectivo declarado de “abrir caminho para uma sociedade socialista”. É verdade que a Constituição tem uma determinada ideologia? É. Já por isso, e porque foi escrita com o entendimento que gerações futuras não podem ficar reféns dos valores dos seus antepassados, pode (com muito cuidadinho) ser emendada.

Sim, pode-se dizer que a Constituição consagra alguma forma de socialismo como “moralmente superior” às alternativas. Se fosse reescrita para elevar o capitalismo de livre mercado como “moralmente superior”, não seria menos ideológica por isso. Mostre-me um documento sem ideologia e eu mostro-lhe que está a segurar um papel em branco.

Posto isto, mal posso esperar pelo momento em que o Ricardo Araújo Pereira o desanca no Governo Sombra! Ah, espera…


¹ Em sua defesa, dizer que o JMT é fascista está factualmente errado. Ele é só parvo.