Adeus e temos pena!


Foi publicado há cerca de um mês, e fez a tradicional ronda das redes sociais, um curioso texto com o provocador título “Adeus e boa sorte!”. Escrito por um jovem “seguidor da meritocracia” (assim se descreve) chamado Gustavo Sande e Castro, mestre em Gestão pela Universidade Nova de Lisboa, o artigo do P3 aponta o dedo àqueles portugueses que, depois de emigrarem, “lançam insultos ao país que cá fica”.

Gustavo está convencido que, fora uma ou outra classe profissional, a maior parte dos portugueses que emigraram não encontraram por cá trabalho por “falta de esforço e flexibilidade” da sua parte. E vai mais longe: lá fora, estão mais que dispostos a aceitar qualquer trabalho que lhes seja posto à frente, como aquela “imensidão de casos de emigrantes que acabam por trabalhar em restaurantes ‘fast food’ ou em trabalhos secundários”. É mesmo querer contrariar! Pode ter um mestrado em Gestão, mas o que Gustavo domina mesmo é a psicologia de massas.

Bem sei que é um bocado indigno cair em cima de um indivíduo cujo único pecado foi o de regurgitar meia dúzia de bacoradas para uma página do P3. Que, de qualquer modo, não fez mais que emitir uma opinião que poderia perfeitamente ter saído da boca de qualquer taxista de praça.

O problema é que este tipo de raciocínio assenta numa falácia especialmente minada, sobretudo para os austeros tempos em que vivemos: a de que a existência de um emprego, qualquer emprego, invalida toda e qualquer menção da falta dele. Pouco interessa se cumpre os mínimos do código laboral — ele existe, por isso deveríamos estar eternamente gratos ao benemérito que o colocou à disposição. Estágio não remunerado, falsos recibos verdes ou trabalho escravo nas vindimas: é trabalho, caraças, toca a pegar na enxada! Upa, upa!

"Não te podemos pagar, Leia, mas ser escrava sexual do Jabba the Hut é um trabalho com muita visibilidade"

“Não te podemos pagar, mas ser escrava do Jabba vai dar-te muita visibilidade e currículo.”

O problema desta tese é que esbarra com a realidade. Fora uma vaga noção inflacionada do seu próprio valor, — os autodenominados meritocratas, está claro, incluem-se sempre a si próprios entre os mais meritosos — não parece haver muitos dados factuais a suportar as afirmações de Gustavo. Desconheço a que fontes, excluindo os tais taxistas de praça, terá recorrido para formar este peculiar quadro, por isso avanço com alguns dados dos meus¹: formas agressivas de precariedade laboral estão todas a alastrarindícios de falsos recibos verdes em 18 mil empresasos cinco mitos sobre a emigração portuguesa.

OK, os dados confirmam: como o meritocrata diz, há quem emigre para trabalhar em empregos para os quais está sobrequalificado. Mas adivinhem lá porquê: porque são — pasme-se! — bem pagos. E poderíamos somar a estes, se não soubéssemos tratar-se de um mito urbano, o facto de ter sido o nosso próprio Primeiro-Ministro a incentivar à emigração jovem.

Mas ao menos não somos a Grécia! N’é, Gustavo?

POST-SCRIPTUM

O Gustavo publicou, na sua página pessoal de Facebook, um esclarecimento: o texto que escreveu para o P3 dirigia-se exclusivamente às pessoas que rejeitam trabalhos cá, seja por “um salário diferente do esperado, um trabalho longe de casa, um estágio do IEFP, etc.” e “que se contradizem nas suas acções no estrangeiro pois acabam por trabalhar em piores condições”. Isto é, a meia dúzia de entidades que poderão ou não existir unicamente na sua cabeça. Tudo está perdoado.


¹ Por “meus” entenda-se: “não fabricados pela imaginação do Gustavo”.

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