Alt-Portugalidade


Perante o consenso geral em condenar o cancelamento da palestra (e era mesmo uma palestra, não um debate) do prof. Jaime Nogueira Pinto a convite de uma tal de NP (não vou mesmo nomeá-la, já basta a publicidade que teve à pála disto), serei o único a achar que a discussão está a ser feita nos termos errados todos?

A comunicação social, a arraste do Observador e do Correio da Manhã, não teve problemas em levantar suspeitas em relação a ameaças de violência física (veiculadas pelo JNP e pela NP mas desmentidas por todos os demais envolvidos), mas praticamente ignorou as denúncias de que cerca de 40 grunhos de extrema-direita invadiram a faculdade com o intuito de fotografar, identificar e intimidar membros da AEFCSH.

Também nisto o João Miguel Tavares, como em quase tudo, está errado. Como que para associar a AEFCSH àquilo que considera ser uma “vergonhosa cultura de trigger warnings“, cita a Constituição fascista de 1933, que limitava a liberdade de expressão pelos “factores que desorientem contra a verdade, a justiça, a moral e o bem comum”. Posto assim, é difícil não lhe dar razão, afinal somos o quê, simpatizantes nazis? Mas e o que diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos (e nunca lhe perdoarei por me ter obrigado a fazer pesquisa!)?

“No exercício destes direitos e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática.” Escapou-me a parte que diz que liberdade de expressão é dizer não importa o quê às custas do que quer que seja.

Diz ele adiante: “a luta pela liberdade de expressão é um dos combates mais sérios e necessários dos nossos dias.” Que é como quem diz: importa menos combater o avanço global de uma retórica xenófoba, ultranacionalista e (essa sim) INERENTEMENTE ANTI-DEMOCRÁTICA, do que permitir que se possa dizer piadas de paneleiros sem ser perturbado. São prioridades.

Desengane-se também quem acha que são querelas entre dois extremos opostos — as duas não são equivalentes, nem de perto nem de longe. Entre a NP e a Associação de Estudantes, só uns declararam a intenção de aparecer com a sua própria “segurança privada”.

Entre a NP e a AEFCSH , só uns foram eleitos e mandatados para representar o corpo estudantil. Também é curioso que se fale tanto na afluência à RGA, mas que ninguém se tenha lembrado de entrevistar mais alunos da faculdade para perceber se se reviam na deliberação que dela saiu.

O mais triste disto tudo é que pôs gente decente a defender o indefensável. O Presidente da República, o Ministro da Educação, a Associação 25 de Abril, quase todas as “cabeças pensantes” à direita e à esquerda, com as melhores das intenções, caíram todos no mesmo logro. Logro esse que, ao que tudo indica, foi planeado pela NP logo desde o início.

Preferem alinhar com a NP e o PNR (farinha do mesmo saco, meus meninos) do que admitir que talvez não haja uma grande conspiração censora da esquerda politicamente correcta.

Mas o que foi que a AEFCSH fez? Limitou-se a recusar participar na organização de um evento que em tudo ia contra o programa pelo qual foram eleitos. No fundo, exactamente o que faria qualquer pessoa nessa situação. O meu respeito pela liberdade de expressão não me obriga a pôr a varanda da minha casa à disposição de quem pretende usá-la para propagandear coisas que considero abomináveis.

O fascismo é uma doença própria da democracia; e só pode surgir nas condições de liberdade que ela cria. Vampiriza-a, serve-se do seu vocabulário e vira-o do avesso para a atacar. O preço a pagar pela liberdade (de expressão, de consciência, de associação,…) é o da eterna vigilância. A mim parece-me que, desta vez, alguém esteve atento e respondeu: na minha casa não!


Imagem de destaque da autoria de Ireas

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