Charlie Don’t Surf


It’s a one a way street in a one horse town
One way people starting to brag around
You can laugh, put ’em down
These one way people gonna blow us down

Os líderes do mundo juntaram-se em Paris para falar do ambiente. Escolha perfeita — podem mostrar a sua solidariedade para com os Franceses e ao mesmo tempo têm desculpa para carregar sobre manifestantes indiscriminadamente, já que as manifestações estão proibidas em Paris. Compreensível.

Há muitas coisas que se tornam compreensíveis numa situação destas. No conforto habitual da nossa existência, não temos de nos confrontar com certas realidades, e quando elas nos explodem na cara, há muita coisa que normalmente recusamos como bárbara cuja utilidade de repente se torna clara. Provavelmente foi por isso que os deputados Franceses aprovaram unanimemente a continuação dos bombardeamentos na Síria.

No meio disto tudo, é de louvar que os nossos líderes tenham mantido o Aquecimento Global na agenda, com a mesma prioridade que dão ao terrorismo. Afinal de contas, o Aquecimento Global é apenas algo que pode eventualmente exterminar a maioria da espécie humana, enquanto que o terrorismo matou centenas de Franceses.

Porque sejamos sinceros: o terrorismo de que os nossos queridos líderes estão a falar não é o que mata gente no Mali, é o que mata gente na Europa e na América do Norte. Por muitas ligações que acham que os dois têm, não são o mesmo nos olhos de quem manda; a diferença vê-se pela reacção.

Um aparte: tive recentemente a oportunidade de dar uma olhadela ao Charlie Hebdo, e aquilo é indubitavelmente racista. Isto não desculpa o que lhes foi feito, apesar de eu saber que há muita gente que gosta de fingir que recusar o racismo do Charlie Hebdo é a mesma coisa que justificar o ataque. Eu sei, eu sei, o Charlie ofende toda a gente por igual. O problema é que a mesma ofensa só vai ofender de forma igual quem já é igual antes da ofensa.

Aquecimento Global e terrorismo. O que é pior, terrorismo ou fome? Quantas mortes acham que a fome provoca por ano? 1000? 2000? Bom, má alimentação é responsável pela morte de quase metade das crianças com menos de 5 anos: 3 100 000 crianças por ano. Acho que um destes problemas é maior do que outro.

Mas a fome mata principalmente na Ásia e em África, e o terrorismo mata em Paris, Londres, Madrid, Nova Iorque. O que eu quero dizer é que o terrorismo é horrível, mas a razão pela qual tem a prioridade que tem é porque afecta directamente os países do ocidente, enquanto que outros problemas bem mais horríveis afectam principalmente gente do terceiro mundo. Talvez compreender o problema no facto dos nossos queridos líderes considerarem que a morte de 130 Franceses vale mais do que todas as mortes de fome no mundo (quando nós já produzimos alimentos suficientes para toda a população) nos ajude também a compreender algo sobre o terrorismo.

Mas eu sei, estou a ser parvo. O que é compreensível é que um Francês hoje ou um Norte-Americano em 2001 queira alistar-se e ir vingar os seus conterrâneos, e que não tenha paciência para mais nada. E o que é incompreensível é que um Iraquiano olhe para os países que espartilharam a sua terra durante gerações como parte dos seus impérios, sugaram-lhes as riquezas, instalaram e depuseram regimes e que mais recentemente destruíram o seu país para depor um ditador que eles próprios ajudaram a instalar e não compreenda que esses países são os bons — símbolos de liberdade, democracia e direitos humanos — e que ele é o mau. E que ele escolha tornar-ser naquilo que já foi castigado por não ser.

Charlie Don’t Surf and we think he should
Charlie don’t surf and you know that it ain’t no good
Charlie don’t surf for his hamburger Momma
Charlie’s gonna be a napalm star
                                   Charlie Don’t Surf, The Clash

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