Colonizar assim dá gosto


Se hoje sei que os Iroquois são uma coisa, é ao “Sid Meyer’s Colonization” que o devo.

Para quem não conhece (basicamente, qualquer pessoa que não fosse puto em 1994), o “Colonization” era um videojogo de estratégica histórica para DOS que permitia ao jogador re-encenar a colonização do Novo Mundo até à fundação dos Estados Unidos da América.

Um aspecto curioso, aparentemente aleatório, me ficou retido na memória acerca da forma como o jogo retratava os Nativos Americanos. Por mais que os deixássemos em paz, algo no algoritmo deles os fazia sempre atacar o jogador. De tal forma que o preconceito ficou enraizado no meu cérebro de tween: que os Nativos Americanos (podemos chamar-lhes Índios? Pelo menos era o que lhes chamava na altura) foram, pelo menos em parte, instigadores da violência que acabou por os destruir.

É um pormenor inocente. E, no plano alargado do branqueamento histórico americano, um detalhe menor.

O que me fez recordar este episódio de infância foi a improvável ligação com um episódio do “This American Life” que relata um dos capítulos mais francamente deprimentes da história da fundação da América: a famigerada “U.S.-Dakota War” e os incidentes que a precipitaram.

Se nunca ouviu este nome antes, não se preocupe, eu também o ouvi pela primeira vez ali. E a maior parte dos Americanos também não deve ter ouvido, já que o episódio continua sendo relativamente obscuro. Foi um conflito armado, em 1862, entre os índios Dakota e o exército Norte-Americano, despoletado por uma revolta sangrenta dos índios sobre a população civil daquela região.

Pelo menos é o que diziam as fontes “oficiais” da altura. A história completa, como é habitual neste tipo de coisas, é bem mais complexa do que temos vontade — ou capacidade — de aqui descrever. Mas foi qualquer coisa como isto: desde muito cedo que os Founding Fathers reconheceram o problema da, digamos, “convivência” com os nativos. A solução, como enunciada pelo Thomas Jefferson numa carta privada, foi convencer os índios a converter-se à economia de mercado obrigando-os a contrair dívidas, para poderem comprar as suas terras por preços irrisórios e de seguida expulsá-los delas. Problema resolvido! Foram as tensões acumuladas por uma série de tratados altamente desvantajosos para os índios, e não um acto de agressão gratuita por parte deles, os verdadeiros responsáveis pela escalada de violência.

200 anos adiante: o interminável processo eleitoral Norte-Americano avança a pleno vapor, em toda a sua espectacular surrealidade, como um comboio desgovernado que desfaz tudo no seu caminho.

O que o Trump diz em relação aos muçulmanos¹ (que mentes mais sãs chamariam de “discurso de ódio”), no fundo, não é muito diferente do que foi dito dos nativos americanos. Ou — perdoem a analogia estafada — o que Hitler disse em relação aos judeus.

Podem achar que a introdução do Trump neste assunto parece despropositada, mas eu acho que não. Se alguma lição podemos retirar do fenómeno eleitoral Trump, é que o desconhecimento do passado é o melhor aliado deste tipo de retórica, que ciclicamente vemos ressurgir.

Felizmente, isso nunca poderia acontecer na Europa, não é? Hmm? Ora, merda.


¹ Ou em relação aos mexicanos. Ou aos negros. Ou a qualquer pessoa que não seja um homem branco de 70 anos chamado Donald J. Trump.

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