Crime, Disseram Eles


Desde que, há meio ano, o sufrágio popular ditou a substituição do governo anterior, tenho visto a comunicação social e as redes sociais entrarem em combustão espontânea entre gritos de “golpe!”

(Os mesmo que, já agora, nem pestanejaram quando um truque à “House of Cards” pôs o Paulo Portas na cadeira de Vice-Primeiro-Ministro.)

A seguir foi vê-los a vaticinar: “Ai se ele cai!”, enquanto rosnavam entre dentes: “Cai! Cai! Cai! Cai!”.

Até agora tenho-me coibido de comentar. Mais pelo prazer de, pela primeira vez em décadas, poder assistir ao colapso mental colectivo daqueles que, até agora, se regozijavam de não ser possível (segundo eles) uma alternativa política.

E então, seis meses se passaram sem que a terra se abrisse sob os nossos pés; o Carmo e a Trindade continuam lá no sítio deles; os anjos credores não abateram sobre nós a fúria divina.

Tentaram, então, fingir que havia algo de ilegal ou ilegítimo no resultado. Ora, quero acreditar que se isso correspondesse à realidade, os meus concidadãos teriam posto o país a ferro e fogo. Nem o Cavaco, que é o Cavaco, se atreveu a decidir que as eleições eram outra coisa que não a expressão da vontade popular. Ainda que tenha conseguido manter o desfecho sequestrado durante semanas (suponho que para dar tempo ao Portas para destruir os documentos que faltassem), uma derradeira emissão gasosa nociva antes de recuar para o poço sulfuroso de onde veio.

Um esclarecimento: o Costa não era e não é a minha primeira escolha para Primeiro-Ministro. Mas até eu tenho que dar a mão à palmatória e reconhecer aquilo que ele é: um político. Isto é, alguém capaz de governar através de entendimentos com quem tem grandes diferenças de opinião. Não sei quanto a vocês, mas acho este processo muito mais democrático do que o que até agora imperou: uma ideologia monolítica que desqualifica tudo o que lhe divirja… Nesse estilo não cabe uma coisa fundamental à democracia, digo eu, que é a dissensão.

Naturalmente, governar desta maneira é a forma mais segura de não deixar ninguém plenamente satisfeito. Uns acharão que se vai longe demais, outros que não se vai longe que chegue. Mas é a única maneira de garantir que ninguém é excluído da conversa.

Sendo assim, não é de surpreender que mesmo entre os próprios partidários do Costa houvesse quem estranhasse. Como Assis, o Homem-Rã, que de bom grado teria continuado numa valsa lenta com o PSD-CDS ad aeternum.

"A menina dança?"

“Vens aqui muitas vezes?”

Mas é mesmo esse o aspecto de uma democracia: o de uma geringonça. Meio desajeitada, pouco polida e mil vezes preferível a uma locomotiva.

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