Crise de identidade


Tem sido frequente ouvir a ideia (bastante popular, suponho, entre os RAPs desta vida) de que a maneira de resolver o racismo (e, arrisco dizer, o sexismo) é não se falar dele. Ora, nós já tentámos essa táctica. A bem dizer, durante largas centenas de anos foi essa a política por defeito, de não se ver, não se ouvir, não se falar em racismo (“em Portugal não há racismo”; “fomos uns colonizadores fixolas”). E, vai-se a ver, o racismo não se resolveu. Os únicos progressos que se fizeram nesta matéria aconteceram exactamente por haver alguns desmancha-prazeres com a coragem para falar dos problemas. E confrontá-los. Quase sempre à revelia das opiniões dominantes e das regras do bom comportamento.

A ideia de que vivemos num mundo pós-racial (de daltónicos raciais, que “não vêem raça”) é bastante apelativa, mas choca com o real. Por exemplo, sabe-se que o Trump venceu em todos os demográficos brancos (independentemente de rendimentos, grau académico, idade…), o que derrota um pouco a teoria de que a sua base seja a classe trabalhadora a quem os liberais não teriam conseguido apelar por estarem demasiado envolvidos em questiúnculas identitárias. Na realidade, o que há é comunidades (raciais, sexuais…) que, embora gozando formalmente dos mesmos direitos e deveres, têm experiências quotidianas bastante diferentes e isoladas entre si. As narrativas identitárias de esquerda procuram, ainda que de forma imperfeita, combater essa insularidade. Parte disso passa por dotar essas comunidades de vocabulários que permitam descrever a sua condição, daí a tónica dada à linguagem.

Mas há um certo recuo, ou pelo menos uma reacção alérgica, em relação aos progressos recentemente adquiridos e ainda frágeis (veja-se a ameaça de veto do PR sobre a lei da mudança de género). Que essa reacção venha dos mesmos que criticam as injustiças dum sistema sócio-económico iníquo, é só triste. A crítica mais comum à esquerda identitária é que preteriu a luta de classes a favor dum humanismo difuso e mole, ao mesmo tempo inofensivo para os sistemas de poder — ou seja, tornou-se complacente e aburguesada. Isto só seria válido se fosse uma questão de ou/ou: ou classe, ou identidade. Não é — as duas são co-dependentes. O próprio Martin Luther King, de quem hoje em dia praticamente só se conhece a versão digest, para consumo em memes inspiradores, tinha um pensamento radicalmente anti-capitalista.

Never gonna let you down

A outra crítica é que a insistência em regular as reivindicações identitárias através da legislação é (mais) uma capitulação e uma legitimização do garante maior do sistema capitalista: o Estado. Há validade na crítica, mas até o Noam Chomsky, que ninguém de esquerda deverá acusar de moleza em relação às questões de classe, defende que face ao cerco do neoliberalismo predatório, podemo-nos servir do estado democrático como forma de, pelo menos, atrasar o seu avanço. E, no entretanto, aliviar as vidas finitas de muita gente que não estará cá para ver a sociedade sem classes prometida.

Aqui é onde a questão se complica. O capitalismo é um sistema modular e extremamente maleável, que facilmente se adapta a novos paradigmas e os envolve e coopta. Recordo-me de ouvir o realizador Todd Solondz falar com ambivalência acerca das luta dos homossexuais pelo direito de servirem nas forças armadas e pelo casamento, basicamente o direito de integrarem instituições centrais e bastante simbólicas do sistema opressivo e patriarcal a que em princípio se deveriam opor. Por outro lado, o acesso a essas instituições representa uma vantagem material real de que antes estavam arredados. Como disse, a luta identitária não é perfeita e tem que aprender a reinventar-se constantemente para escapar à apropriação. O que não significa que não é para ser lutada.