É pó menino e pá menina!


No manifesto que James Damore escreveu denunciando as iniciativas de diversidade da Google, o engenheiro argumenta que a menor prevalência de mulheres no seu local de trabalho se deve à natural apetência delas por carreiras que valorizem a “empatia” e “agradabilidade”; à sua maior susceptibilidade ao “neuroticismo” e ao stress; à menor ambição profissional e maior importância dada à vida pessoal… Tudo isto sustentado por argumentos pretensamente científicos, que só não eram reconhecidos como evidências por causa da sufocante (já se estava a ver) censura politicamente correcta que grassa naquela empresa. Em entrevista à Veja, Damore diz que “ser conservador na Google é como ser gay nos anos 50”. Não estou na tanga.

Já assistimos a isto mil vezes, à tentativa de naturalizar a descriminação atribuindo-lhe razões biológicas. Do séc. XVII ao XIX também havia quem assegurasse que os crânios dos negros eram menores que os dos brancos; e há menos tempo que isso, havia quem apontasse evidências arqueológicas da ascendência Atlante da raça Ariana.

Caras que só uma mãe pode amar. (Wikicommons)

No papel, é claro que sou contra quotas de qualquer tipo. Acho que qualquer pessoa prefere ser avaliada objectivamente pelo seu mérito próprio; mas isto só funcionaria se não houvesse toda a espécie de preconceitos conscientes e inconscientes a perverter essa meritocracia. As quotas são justas porque funcionam como contrapeso desses preconceitos.

E funcionam. Por mais que cresse na justiça das quotas, de nada valeria se não funcionassem. Mas aparentemente funcionam. As quotas são uma solução péssima, mas são a melhor que conhecemos.

Agora os bloquinhos da discórdia. Acerca deste assunto, vi gente puxar dos mesmos argumentos que foram utilizados no “manifesto anti-diversidade”. A análise que o Ricardo Araújo Pereira fez dos blocos de actividades (invocada nas redes sociais como prova provada do absurdo a que teria chegado a histeria do politicamente correcto) foi desleixada; pior, as piadas que fez a partir dela foram desleixadas. Pode-se perdoar muita coisa a um humorista, mas nunca a falta de piada.

Com este episódio consegui dar um nome àquilo que suspeitava que o RAP é: o RAP é, apesar das suas melhores intenções, uma pessoa essencialmente conservadora. O conservadorismo não é exclusivo de direitas ou esquerdas.

Mas que importa que haja exercícios diferentes para meninos e meninas? Importa, porque se trata de materiais pedagógicos, com impacto na formação das personalidades. Importa, porque é o tipo de coisa que se repercute na vida profissional futura, especificamente na questão da desigualdade salarial e da paridade. Não acreditam? Vejam a Google.