Laranjinha mecânica


Não assisti logo aos debates Rui Rio-Santana pela mesma razão que não vejo jogos do Canelas: não é a minha equipa, os intervenientes não me inspiram e não sei se tenho estômago para tanta sarrafada — e não tenho televisor.

Antes de os ter visto, via a coisa sensivelmente da mesma maneira de quem, como eu, está a ver o filme de fora: descontava o Santana como uma piada, cuja eventual vitória serviria muito menos os interesses do partido do que dos oponentes. E do humor, claro. O humor ficaria a ganhar.

Agora, já não tenho a certeza. O Rui Rio é um candidato mau (disso não posso ter dúvidas, ou não vivesse no Porto durante o seu mandato); o Santana é um candidato perigoso.

Para perceber isso, é preciso estar-se atento aos sinais subliminares que liberta. Sinaliza-o quando faz da associação a uma das poucas vozes dissonantes no Passismo (o Pacheco Pereira) sinal de deslealdade inaceitável. Sinaliza-o quando usa uma fotografia com a Associação 25 de Abril como prova incriminatória de… algo?, não se percebe bem. De que não despreza abertamente o momento histórico que nos deu a mesma democracia que o Santana hoje usa como plataforma de lançamento, talvez? Sinaliza-o na desfaçatez, quase patológica, com que nega as mais óbvias evidências inconvenientes para si (“trapalhadas, eeeeu?! Por quem sois!”)… Aliás, a forma como qualquer crítica parece escorregar na sua carapaça oleosa faz lembrar o Trump, outro político perigoso inicialmente descontado pela oposição.

Toda a gente sabe que o Santana não tem o mínimo pejo em descer ao mais chão populismo — não tenho a mais pequena dúvida que, da forma como as coisas estão, isso lhe garante alguns votos extra. Mas o Santana não é Trump: comparado com ele, sem hipérbole, o Santana tem a finesse de um bailarino do Bolshoi. Mas é perigoso. E, como o Trump, está a ser subestimado. Não me espantaria que ainda nos surpreendesse a todos.

Aqui há tempos eu dizia, na minha qualidade de cientista político de café, que o PSD (perdão, PPD-PSD) estava especialmente vulnerável a uma tomada de poder populista, que até pode beneficiar de algum vazio ideológico na sua liderança. Pode muito bem ter encontrado em Santana o seu avatar ideal.

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