Nem sempre teremos Paris


É um factóide bem conhecido da História que, imediatamente após a detonação da primeira bomba nuclear em Los Alamos, J. Robert Oppenheimer citou a seguinte passagem da escritura Hindu: “agora me tornei a morte, destruidora de mundos”.

Cada vez é mais comum ver, na cronologia do meu Facebook, publicações a publicitar algum tipo de teoria da conspiração: o 9/11 foi um embuste; os atentados na Síria são encenados por actores; a indústria farmacêutica encobre o facto de que vacinas provocam autismo; etc. etc. etc. Há teorias da conspiração para todos os gostos, mas todas têm em comum uma coisa: uma desconfiança inata de qualquer tipo de autoridade, de que o anti-intelectualismo é uma parte. Daí a dificuldade de tanta gente em aceitar coisas que a comunidade científica já tomou como consensuais há muito tempo.

Seja no negacionismo das alterações climáticas, de atentados que nunca aconteceram, fake news ou factos alternativos, a linguagem diplomática adoptou a das teorias de conspiração. Trump está a seguir um guião já posto em prática pelo Putin, que por sua vez estudou a lição do Berlusconi (que deve ter aprendido uma coisa ou outra com o Dan Brown ((aquele que reanimou a falsificação anti-semita dos Protocolos de Sião)). É um clima intelectual que funciona a favor dos tiranetes: quando já não existe realidade objectiva, eles são livres de criar a que quiserem. O desencanto pela democracia abre as portas a revolucionários (na pior acepção do termo) populistas que prometem jogar por regras completamente diferentes. Ao ver a estranheza do Trump quando se depara com alguma barreira institucional, percebe-se bem em que categoria ele encaixa.

Agora, no caso do “cepticismo” em relação ao aquecimento global, a questão toma contornos existenciais. Pela primeira vez na História, está em jogo a continuidade da civilização humana num qualquer estado em que a possamos reconhecer. Para mim, esta é a evidência que faltava de que o culto das conspirações inclui também um germe de niilismo. O sentimento de impotência absoluta inerente à crença numa corrupção sem limites alimenta o desejo de dinamitar essa ordem, deitar tudo abaixo para reedificar. Não foram poucos os eleitores de Trump (assim como alguns Brexiters) que votaram com o objectivo declarado de rebentar com as engrenagens da maquinaria.

Ao rasgar a sua parte do Acordo de Paris, Trump tornou manifesta essa vontade. Agora se tornou a morte, destruidora de mundos.

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