O conto do IGAC e do Hyperlink


Era uma vez um pequeno texto que tinha sido publicado online. Quem sabe, talvez até tenha sido publicado neste mesmo site! O texto (chamemos-lhe Zé) até era engraçadito, se bem que de uma maneira um pouco acídica, ou talvez até mesmo viperina, mas… ninguém o lia¹.

“Porque é que ninguém me liga nenhuma?”, perguntava o Zé a ninguém em particular. E ninguém em particular lhe respondia. Sozinho e abandonado num canto de um qualquer servidor, Zé chorava 0s e 1s de frustração com a sua irrelevância.

Como que em resposta ao desespero deste pobre, surgiu uma voz do topo do Panteão da World Wide Web — era Tim Berners-Lee, o Pai Celestial da Web pela qual o Zé se queria espalhar!

“Zééééé! Zéééé!”, vociferou Tim, “Estás-te a esquecer do conceito base da tua vida!”

“Não entendo, Pai Celestial! Eu fiz tudo certo: toquei num assunto da moda, fui engraçado e até puxei alguns cordelinhos emocionais. Porque é que ninguém quer saber de mim!?”

A entidade ciber-celestial soltou um suspiro prolongado e continuou a falar:

“Sim, Zé, és um texto engraçadinho, apesar de meio parvo. De certeza que pelo menos meia dúzia de pessoas te querem ler. Mas ninguém sabe que existes! Tens de te dar a conhecer, jovem!”

“Dar-me a conhecer?”, pensou Zé para com os seus botões. “Mas não basta existir para toda a gente vir a correr para apreciar a minha espectacularidade? O que quer ele dizer com isto?”

Zé nem teve tempo de apresentar as suas dúvidas!

“Eu sei que estás confuso, pequeno texto”, antecipou-se Tim, “Tens de te pôr lá fora! Tens de usar a magia dos hyperlinks para que os outros possam chegar a ti! Espalha-te, texto Zé, espalha-te e dá-te a conhecer ao mundo!”

A imagem de Berners-Lee dissipou-se com esta mensagem, deixando o texto solitário com o caminho para a sucesso. Parecia tudo tão óbvio agora: claro que ninguém sabia da existência dele! Afinal, nunca se tinha dado a conhecer e estava completamente isolado naquele cantinho. O truque era óbvio: tinha de puxar o interesse de meia dúzia de gatos pingados! Esses tantos, ao gostarem dele, iriam chamar outros tantos! Era esse o caminho! Armado com este conhecimento (óbvio, em retrospectiva), o Zé ia finalmente ser um sucesso!

Mas, infelizmente, a palavra chave ali era “ia”… Porque sem o Zé saber, uma criatura pérfida conhecida apenas como IGAC tinha decidido tomar as rédeas da Web! O IGAC tinha decidido que a magia dos hyperlinks era algo de abominável no mundo internáutico, algo que só deveria ser partilhado com um bocadinho de burocracia por cima, como uma espécie de cereja apodrecida no cimo do bolo!

Que se dane que os hyperlinks sejam um conceito básico da Web! Que se dane que sejam literalmente a necessidade mais básica para que o conteúdo chegue ao público! Tem de haver controlo, e para isso o IGAC tem de ter pulso firme! Ou talvez tenha de haver IGAC, e por isso o controlo tem de ser excessivo.

Mas a moral desta história é que quase ninguém conhece o Zé… E quase ninguém o há-de conhecer. Ora por não saberem que ele existe, ora por terem medo de desaparecerem devido ao mero “crime” de o quererem dar a conhecer.

Mas isto é tudo uma parvoíce, não é? Pelo menos, nós aqui no Ministério achamos que todo este cenário parece algo saído de um conto orwelliano e que não tem qualquer lugar no mundo real. E é exactamente por isso que vos incentivamos a espalhar por aí o quão ridículo tudo isto é. Aliás, sugerimos que espalhem isso particularmente na direcção do IGAC.

E, numa nota mais positiva, digam também ao Bloco de Esquerda o quão ridículo acham tudo isto. É que eles parecem concordar que este tipo de ideias são um pouco para o parvas e merecem algum apoio por isso.


¹ Com isto, acho que se desvanecem as dúvidas de que deve ter sido mesmo publicado aqui.

Imagem de destaque da autoria de Chris73

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