O triunfo da apolítica


Não há, hoje em dia, praticamente nenhum político, comentador ou jornalista que admita abertamente ter uma ideologia. Em particular no chamado Bloco Central (que na realidade vai do centro, à direita, a um-bocado-mais-para-a-direita), declarar uma opinião política é algo considerado de extremo mau gosto.

O ênfase está todo na resolução de problemas. Ideologia, o que é isso? A acreditarmos nisso, os políticos já não fazem política, fazem suporte técnico.

"OK Telegenia, fala o Marcelo."

“OK Telegenia, fala o Marcelo.”

A candidatura do MRS, independente com uma mãozinha por baixo do PSD-CDS e outra da comunicação social, foi o epítome da “apolítica”. Não foi necessário a MRS emitir a sua opinião sobre seja o que for para ganhar as eleições. Eu diria mesmo mais: foi em boa parte graças à estratégia deliberada de não ter opinião que MRS ganhou as eleições. Esta estratégia teve uma dupla vantagem: permite-lhe não se comprometer a absolutamente nada, e por isso não terá que prestar contas por nada; e protege-o de ser contaminado pela má reputação do aparelho partidário. Apropriadamente, o Marcelo-candidato adoptou o mesmo estilo professoral que o Marcelo-comentador.

Hum… Será que nos ocorre alguma figura recente com uma postura semelhante? O Cavaco foi talvez quem mais habilmente se colou à imagem do político-não-político, que usou para erguer uma das carreiras políticas mais longas do pós 25 de Abril. E se quiserem ter uma ideia do que é capaz um Presidente da República “apolítico”, basta ver umas das últimas medidas do Cavaco enquanto tal.

Mas não admitir que se tem uma ideologia não é o mesmo que não ter ideologia; e há realmente muito poucas coisas que não tenham uma dimensão política.

Um empresário que critique, independentemente das suas razões, o aumento do salário mínimo, expressa uma opinião política, não uma fatalidade económica. (Sabendo nós tão bem que há poucas coisas tão políticas como o valor do trabalho.)

Da mesma forma que um trabalhador que reinvindique um aumento salarial está a adoptar uma posição política.

E já agora, alguém que não vota porque não se interessa nada por política, também está a agir politicamente.

Uma particularidade desta tendência é que serve a narrativa do “não há alternativa”. Ao encararmos a vida pública não como algo que vai sendo construído por compromissos entre visões distintas do mundo, mas como um problema que tem uma determinada solução técnica, estamos a atribuir-lhe uma objectividade que não tem. Pode-se ter substituído os manifestos por folhas de Excel, mas o pensamento é essencialmente o mesmo. E tão ou mais dogmático.

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