Os homens que morderam a mulher, mas deixaram o cão em paz


Recentemente saiu uma notícia com o seu quê de insólito: uma barbearia da zona do Cais do Sodré, em Lisboa, foi invadida por um grupo de mulheres, algumas mascaradas de cão, que tiveram que ser escorraçadas à paulada pelos funcionários. O estabelecimento em questão chama-se Figaro’s Barber Shop e o uso da palavra “invadida” só é possível por um pequeno pormenor: neste local não é permitida a entrada a mulheres. Mais exactamente: na porta da Figaro’s há um letreiro a explicar que é permitida a entrada a homens e cães, mas não a mulheres.

Classe.

Classe.

Não deverá surpreender o facto de que estes espécimes do neo macho latino tenham o aspecto correspondente a uma caricatura risível daquilo que imaginam ser o de um homem que viveu entre os anos 20 e 50. Deles, adoptaram apenas alguns dos códigos externos: cabelo à foda-se, a pingar Restaurador Olex; barba à lenhador; tatuagens à malandro de urinol… E sem esquecer a misoginia, num grau que deixaria o Archie Bunker desconfortável. Não se deixem enganar pelo aspecto trendy destes tipos: eles são a versão moderna (mas igualmente retrógada) do Zezé Camarinha no auge da sua untuosidade.

Estamos a falar de tipos de tal forma inseguros que se vêm forçados a sobrecarregar-se de sinais externos de masculinidade. Sem dúvida que nos tempos livres também praticam pugilismo e wrestling com crocodilos.

Não sei porquê, faz-me lembrar a Lumberjack Song...

Não sei porquê, faz-me lembrar a Lumberjack Song

O “Fight Club” já brincou com isto tudo, mas a eles a ironia provavelmente terá passado ao lado. Esta fobia de emasculação é até bastante popular e tem implícita a crença de que a conquista de direitos pela mulher faz-se com prejuízo para os do homem. Esta crença opera segundo duas falácias evidentes: a) os direitos das mulheres estão longe de estar em pé de igualdade com os dos homens, para todos os efeitos; e b) os únicos direitos que os homens possam ter perdido no processo foram só os que lhes estavam indevidamente atribuidos.

(Como foi só por essa razão que os brancos perderam o direito de serem os únicos a poder beber águas das fontes públicas, nos EUA. Just sayin’.)

Em último caso, a questão da Figaro’s é uma de direito legal. O critério de exclusão de admissão por sexo está, pura e simplesmente, proibido pelo artigo 13º daquele documento muito démodé que é a Constituição da República Portuguesa.

O problema deste tipo de moda revivalista (como demonstrado por este episódio) é que vem acompanhada, frequentemente, de uma desagradável carga de reaccionarismo que desejávamos já estar extinta. É o caso hipster: o que as bicicletas mono-mudança, os leitores de vinil e a obsessão por coisas vintage em geral representam é nada mais, nada menos que um desejo de regressão cultural, o regresso a um passado imaginário mais puro, que não seria possível sem o movimento correspondente de alguns dos avanços sociais que conquistámos: os direitos das mulheres, das sexualidades não heteronormativas, etc…

Então, meus queridos: se fazem mesmo questão em voltar a ser um homem quintessencial “à antiga”, vão mas é trabalhar 11 horas diárias para uma mina de volfrâmio, perfilhem oito ou nove ranhosinhos (dos quais mais de 60% morrerá antes da idade adulta) e adquiram um saudável hábito de alcoolismo. Não vale a pena fazer a coisa se não a fizermos como deve ser.

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