Padaria Americana


Outra coisa acerca do Trumpismo: é um fenómeno devedor daquela ideia, popular também por aqui, de que os estados deveriam ser geridos mais como empresas. Não interessa que ele tenha afundado mais negócios do que submarinos num jogo de batalha naval: a ideia de que o Trump é um homem de sucesso nos negócios pegou e conquistou-lhe muitos votos.

Os EUA, sempre pioneiros nestas coisas, já levaram a ideia mais à frente, com a regra do uma-pessoa-um-voto prontamente excisada através da emenda constitucional que deu direitos humanos às empresas.

Essa ideia, como bom protectorado dos EUA que somos, está viva e de boa saúde na Europa. Por cá assume geralmente a forma de “responsabilidade fiscal” e traduz-se quase sempre na privatização de serviços estatais, desregularização de mercados e amputação de políticas sociais. Mas não é só uma questão de eficiência de gestão, os dois têm propósitos completamente diferentes. As empresas visam, em última instância, gerar lucros para os seus investidores; os estados pretendem ser um garante da coesão do tecido social e do respeito pelos direitos humanos fundamentais. A sério, as diferenças são tão abismais em natureza e escala que nem deveria ser preciso explicar.

E para mais, sabem o que é inerentemente não-democrática? Uma empresa. Um empresário não tem que consultar os seus colaboradores (para usar o termo da moda) para tomar uma decisão, nem que zelar pelos seus interesses. Achar-se que da transposição dessa lógica para a gestão de um estado pode sair alguma coisa boa é, no mínimo, bastante ingénuo. Era uma Padaria Portuguesa em cada esquina.

E em cada rosto este man.