Pensamentos Arrojados


De vez em quando, a saltar de canal em canal ou a deambular pelos intertubos, damos de caras com algo profundamente desagradável. Um vídeo de gente a comer dejetos; um comentário do Arroja.

O que torna o Pedro Arroja minimamente suportável no seu católico-fascismo (para não usar a palavra ‘S’, que a direita tenta sempre chutar para canto na lógica de que é a versão Portuguesa da “Redução a Hitler”) é que as suas ideias são grotescamente estúpidas, o que lhe tira um bom pedaço de perigo. É um olhar para trás, para o tipo de retórica cretina que a Igreja usava noutros tempos, a aproveitar a ignorância institucionalmente promovida dos seus rebanhos (e que eu suspeito ainda é regularmente arrancada da cave, coberta de ferrugem, e arrastada para campos de batalha pelo país fora). O Arroja diz coisas como, por exemplo, que a democracia é estúpida porque nós também não escolhemos o nosso pai, certo? Faz sentido.

Enquanto escrevo isto ele ainda está no Porto Canal a arregimentar o seu proto-pensamento contra o Lars Vilks. Por exemplo, o Lars Vilks não é verdadeiramente livre, porque tem que andar com seguranças para o proteger de fanáticos que usam metralhadoras contra cartoonistas – liberdade é não se expressar livremente por medo que nos matem (isso e ter, tecnicamente, o poder de se locomover numa rua), uma definição com que o Ministério do Amor concordaria. É mesmo preciso dizer que o amor por toda a vida do catolicismo Arrójico não se estende a cartoonistas assassinados por fanáticos (culpa deles por gozar com as “crenças mais profundas das pessoas”)?

Desnecessário dizer que o Arroja é o tipo de criatura que acha que a Liberdade de Expressão acaba no momento em que é usada para dizer algo de que ele não gosta; que ele acha que os cartoons do Lars Vilks não são arte, porque arte é uma coisa que nos aproxima de Deus (Arroja dixit), como as obras do Botticelli e do Michelangelo (o que significa que arte a sério só existe quando alguém – tipo a Igreja Católica – decide pagar aos melhores artistas do Mundo; o Michelangelo não trabalhava propriamente por fé).

Como defensor da Liberdade de Expressão (mesmo quando usada para atacar as minhas “crenças profundas”), devo dizer que duvido muito da escolha do Porto Canal em ter este sujeito a comentar no seu telejornal às Segundas. Sim, apoio a ideia de ter representantes de todo o leque de posições políticas. Mas ter como representante da Extrema Direita Portuguesa um infeliz com a capacidade intelectual de um sardão perdido numa autoestrada, desorientado, atormentado por dúvidas existenciais provocadas por este terreno bizarro e alienígena, ansioso por partilhar as suas ideias sobre como melhor organizar o Estado Português com a coisa de borracha daquele objecto enorme e extremamente rápido que vem na sua direcção, parece-me mauzinho da parte deles. Como se só por maldade ou estupidez cavalgante é que alguém poderia sustentar um ideário daqueles.

Arrojado

Tentei encontrar uma imagem de uso livre do Arroja, e isto foi o melhor que consegui. Ele está algures na primeira fila. Acho que é logo o primeiro. (Wikicommons)

 

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