Quem tem medo do Trump?


O que me assusta mais nem é o Trump. O que me assusta realmente são os adversários do Trump.

O Trump é regularmente acusado pelos seus adversários dentro do partido de ser um moderado, mais próximo dos Democratas do que da linha dura Republicana. A diferença é que o Trump articula explicitamente aquilo que é a linha dominante do partido, mas que ninguém tem o descaramento de admitir abertamente.

Um caso concreto: recentemente o Trump arranjou problemas por dizer que, caso seja eleito, as mulheres que optem por interromper uma gravidez indesejada terão que ser punidas de alguma forma. As declarações foram mal acolhidas, compreensivelmente, não só pelo lado pró-escolha mas também pelo pró-vida (para usar os eufemismos locais). É que admitir esta implicação óbvia, a de que se decidimos que o aborto é um crime (como defende, por exemplo, o tenebroso Ted Cruz), temos forçosamente que punir todas as partes responsáveis. Mas do lado pró-vida, proibido falar-se disso! É que, se calhar, admiti-lo abertamente poderia alienar demasiado o eleitorado feminino…

Mas o Trump é um vendedor da banha da cobra, um balão de ar quente sempre a ponto de romper, um réptil auto-preservacionista mais preocupado em cuidar do seu próprio fabuloso couro, do que em conduzir os exércitos de Deus no Juízo Final. Dos dois males, prefiro o primeiro.

Mas o que me assusta mais nem é o Trump. O que me assusta realmente são os apoiantes do Trump.

São os apoiantes do Trump que entram em delírio com as tiradas racistas dele. São os apoiantes do Trump que respondem às incitações à violência com agressões a manifestantes nos comícios. São os apoiantes do Trump que desejam — não, exigem — um recuo civilizacional drástico, nem que seja à força da bala.

A massa humana que apoia o Trump é uma minoria, sim. Uma minoria que, se ainda é capaz de o escolher para candidato Republicano, provavelmente não será suficiente para o fazer Presidente.

Mas, como aprendemos com os fascismos do passado, não é preciso mais que uma minoria estridente — e uma maioria complacente — para se instaurar um pesadelo totalitário.

Mas o que me assusta mais nem é o Trump. O que me assusta mais é que a vencedora mais provável das presidênciais é a Hillary Clinton. E ela já deixou bem claro que não irá mexer uma palha para combater os problemas que minam a credibilidade do sistema político Americano, nomeadamente a promiscuidade entre políticos e grandes fortunas (o grande tema a sair destas eleições). Caralho, ela é o sistema!

Quando as eleições terminarem e o Trump tiver regressado à sua cabine bronzeadora, o problema não terá desaparecido. Mais tarde ou mais cedo, há-de reaparecer. Resta saber que forma terá, e se terá um cabelo tão glorioso como o dele.


Imagem de destaque da autoria de Gage Skidmore.