Rap de surdos


É o fim lógico da demanda contra a linguagem politicamente correcta: a administração Trump proibiu esta semana o uso de palavras como “transgénero”, “vulnerável” ou “diversidade” em documentos da mais importante agência de saúde do país. Mas, para o Ricardo Araújo Pereira e outros colegas seus, o que estamos a viver é uma ditadura do politicamente correcto que policia de forma implacável a linguagem e condena ao ostracismo quem não se dobre aos seus ditames.

Ora, as suas acusações de censura dependem de homens de palha que sacam da tocha e forquilha à mínima infracção aparente. Não sei onde ele se anda a cruzar com tais personagens nem vi, no espaço público, ninguém a exigir demissões ou a pedir contas à justiça por aquilo que ele tem dito em defesa da “liberdade de expressão”. Seguramente, não representam a maioria da crítica que tenho lido. A não ser que ande a ler as caixas de comentários online e, aí sim, justifica-se uma imagem da humanidade realmente negra.

Para o RAP, a sua “excomunhão” (palavra dele) da esquerda não é razão para um bocadinho de auto-reflexão, mas sim a confirmação de que está no caminho certo e da sua vitimização às mãos de uma turba de intolerantes. Até a admissão do seu próprio reaccionarismo é indicadora menos de introspecção do que de antecipação às críticas.

Tudo se resume a uma questão de proporção e prioridade: o RAP não pode criticar o excesso de zelo de algumas feministas? Claro que pode. Tem-o feito consistentemente, com um zelo equivalente àquele que critica. E se é verdade que nenhuma “porteira, proprietária da esquerda, do feminismo e da luta contra o racismo e a homofobia” pode decidir que ele não faz “o consumo mínimo obrigatório”, o RAP parece conceder-se a si próprio a aprovação com demasiada indulgência. É que os mínimos não estão escritos em pedra, são fluidos e aquilo que ontem era progressivo pode amanhã revelar-se regressivo. Em 1940, a abertura dos espectáculos de menestréis a actores negros era sinal de progresso; à luz do nosso tempo, os estereótipos racistas em que esses espectáculos assentavam podem ser vistos pelo ignóbeis que eram.

Se o RAP se viu forçado, por oposição ao politicamente correcto, a defender os direitos de quem não gosta particularmente, também ele (e os do seu campo) me força a ladear com algo pelo qual não tenho especial simpatia: o politicamente correcto. No seu fervor libertário, o RAP assumiu posições convergentes com os sectores mais conservadores da sociedade, para quem a liberdade de expressão é só uma desculpa para preservar o status quo de forma imune à crítica; e que usam o termo “politicamente correcto” de forma tão lata que praticamente tudo o que se lhes oponha pode levar esse carimbo.

Já o disse antes, mas repito: não é censurar alguém, o não querer ceder-lhe o púlpito para falar. Mas aparentemente, para os defensores do politicamente incorrecto nenhuma crítica é a única crítica admissível.