Se não te portas bem, vem o Syriza e come-te


Tive há dias o infortúnio de tropeçar num artigo de Nuno Moura Roldão (NMR) para o Econónimo em que o advogado (e, alas, cronista) tecia as mais infelizes comparações entre o que está a acontecer na Grécia e a ascensão do Nazismo na Alemanha dos anos 30.

Sim, o NMR larga a bomba H (de Hitler). Duas vezes. Não é que o discurso de NMR tenha alguma coisa de novo em relação ao que, um pouco por todo o lado, já vem sendo dito. De facto, ainda a eleição de Alexis Tsipras era uma mera hipótese, já a UE, na voz de Angela Merkel, mandava recados e ameaças pouco veladas ao eleitorado do país. O nosso Pedro Passos Coelho (que parece ter adoptado o slogan “Grécia é a tua tia, pá!”) também veio a público falar de “contos de criança”, ao mesmo tempo que tentava colar o PS à esquerda “radical” do BE e do Syriza.

Um pouco por toda a Europa uma voz consensual se ergue: estamos perante um abismo, um devaneio infantil, um potencial e provável desastre, Fukushima vezes Chernobyl elevado ao Watergate!

A Cruzada de José Rodrigues dos Santos

Os media também apanharam a onda, e em grande estilo! Especial distinção vai para o pivot da RTP1 José Rodrigues dos Santos (JRS), que não tardou em vestir o colete caqui para ir a correr cobrir todos os pormenores do processo eleitoral Grego e, a caminho, vomitar a maior colecção de inanidades jornalísticas de que há memória em tempos modernos. Depois de sozinho ter derrotado o extremismo islâmico, parece que o nosso Dan Brown à portuguesa apontou a mira ao Syriza. É bom que Tsipras se cuide.

O problema maior

The thing is… Este processo de diabolização, não inteiramente inocente, da Grécia e seus representantes eleitos não é mais que uma parte do fenómeno maior – em Portugal e na Europa – de deslocamento do espectro político em direcção à direita. Não são inocentes as acusações feitas ao PS de António Costa pelo PSD de guinar à esquerda. Como não era inocente José Sócrates quando habilmente apelidava de “radical” todos os que estivessem à sua esquerda. Também não são inocentes as generalizações grosseiras sobre os madraços que vivem às custas do estado social e os trabalhadores da função pública (JRS chega a dizer, em reportagem, que “muitos taxistas […] são cegos. Ou melhor, pagaram a um médico para lhes passar um atestado de cegueira”… Mas esquece-se de fornecer números, estatísticas ou algo mais que um “diz que disse”). Ou a imputação, como a que faz NMR no seu artigo, de todos os problemas económicos a políticas socialistas, convenientemente ignorando o facto de que a direita tem sido uma presença praticamente ininterrupta nos sucessivos governos desde o 25 de Abril.

Chegámos ao ponto de, na Assembleia da República, não termos esquerda – temos uma Esquerda Radical, uma Extrema-Esquerda e uma Esquerda Caviar, mas o que aconteceu à Simplesmente Esquerda? Mais grave ainda, que é feito da direita?! Decerto os malandros da esquerda lhe aprontaram alguma e a fizeram substituir por um blocão central…

E  eu convencido que “radical” era isto… (On Top Records)

No caso particular da Grécia, esta conversa toda de contos para crianças faz-me lembrar aquele do Pedro e do Lobo. À força de tanto darem o alerta, arriscam-se a que ninguém lhes ligue quando finalmente se acercar o perigo.

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