Toitoi


Este texto não é sobre isto que vou falar agora, mas é preciso dar algum contexto.

Agosto de 2000, noite tardia. Entro no autocarro que me vai levar do Algarve até ao Minho. Desta vez, não houve direito a viagem de avião, como no ano anterior. Em boa verdade, os papás tinham perguntado se iria a algum festival de música e eu disse que sim e eles perguntaram a qual e eu disse Paredes de Coura e eles decidiram marcar férias em família para uma data que não chocasse com a minha manifesta intenção. Mas depois de marcarem as férias, de estar tudo acertado com a agência de viagens, foi anunciado o cartaz do Festival da Ilha do Ermal. Problema: realizava-se mesmo no meio da prevista semana de férias a três. Sem solução evidente, transmiti a mudança de planos e arquei com a consequência: treze horas de viagem desconfortável até Guimarães.

Mas este texto não é sobre isto. Já explico sobre o que é.

Sol a pino, hora de almoço do dia seguinte, o autocarro abriga-se na sombra do Terminal e salto diretamente para o carro de um amigo (talvez tenha demorado um par de horas, quem sabe?), namorada de liceu no banco de trás, e zarpamos Minho acima, Minho adentro. Par de horas gastas e chegamos perto, o recinto lá em baixo, no fundo da ribanceira mas nós sem descobrirmos a estrada para os últimos metros. Experimentamos uma, teste teste, um dois, não era a certa. Experimentamos não sei quantas (se calhar foi só uma, não importa) e pum, pás, pim, pau, onomatopeia atrás de onomatopeia a entrar-nos pelos ouvidos. À nossa esquerda, entre os arbustos e os pinheiros e a poeira revolta, um carro imobiliza-se. Paramos e vamos lá e dos pormenores não me recordo com precisão: talvez a tenhamos ajudado a sair do carro ou ela tenha saído pelo próprio pé, ou só chamamos o 112 para a vir buscar, já não me lembro de nada disto, mas sei que acabamos em Vieira do Minho, no centro de saúde, à espera de saber novidades da miúda (nem o nome dela ficou na memória). Um par de horas depois, sabemos que está tudo bem, voltamos ao carro e à busca pelo festival perdido. Voltamos para a estrada que descíamos quando o despiste nos desviou do nosso trajeto e está cortada. Era o caminho certo mas o timing errado, teremos de levar tudo à costas. Uns bons três quilómetros, uma chuvada de inverno em pleno pico do verão, 45 minutos a carregar mochila e tenda e panelas e o peso do céu a desabar em nós. Estranha sina esta a de quem gastou duas horas a ajudar e gastar preocupação uma estranha.

Mas este texto também não é sobre isto. Já lá chegamos, não falta muito.

Durante o festival, houve excessos. Nada de particularmente extraordinário, mas nem por isso menos marcante. Estou bem e depois já não estou tão bem e afasto-me da zona de concertos e cedo inesperadamente à passagem de um buraco (tão bizarro haver um buraco daqueles no meio do nada). Caio, tardo em levantar-me e reúno as poucas sugestões de bom senso que me sobram. Só havia uma coisa a fazer: regressar à tenda e dar a noite por terminada. A noite discordou, quis manter-me desperto por mais um bocado, apenas o tempo suficiente para o corpo me dizer, subitamente, que era urgente encontrar uma casa de banho. Saí disparado, olhos postos no destino, a umas dezenas de metros de distância. Passo cambaleante mas firme, lanterna na mão direita, daquelas com vários tipos de lâmpadas e configurações e que tanto dão luz laranja, como azul, como amarela, fixa e intermitente, e usam uma pilhas retangulares que nem sabíamos que ainda eram usadas. Vou pelo caminho, à procura da configuração certa, acerto numa que me satisfaz e chego ao meu destino. Entro. O que a lanterna me permite pontapeia-me diretamente no estômago. La-tri-na. O cheio nauseabundo, o depósito cheio de papel húmido e fezes e garrafa (?) e peças de roupa (??) e arrependimento. Saio disparado, saem-me disparadas as pilhas da lanterna, sai-me disparado o vómito. Nunca mais na vida tive uma reação tão visceral como nesse dia, mas este texto também não é sobre isso. Estamos quase lá.

Agosto de 2015, passo no festival X, hora de sair da cerveja que entrou no sistema umas horas antes. Casa de banho ao fundo, foi entrar e chegar finalmente aonde queria chegar.

Toitoi

Como é que é possível que, 15 anos depois, isto seja o zénite da tecnologia?

Em que momento é que as pessoas que criaram a casa de banho portátil concluíram que o trabalho estava finalizado? Superamos doenças, fotografamos Plutão, inventamos diariamente formas de fazer tudo/melhor, mas um paralelipedo de plástico com uma fossa séptica aberta de um metro cúbico é o máximo a que almejamos no domínio dos cuidados sanitários? Eu digo que não.