Um momentinho de vómito, cortesia do Portas


Logo no início da sua intervenção, o Paulinho avisa: aquilo que está prestes a dizer não é completamente estúpido, misógino até dizer chega, uma distorção rasteira dos factos, não. É ser “o mais politicamente incorrecto possível“. ‘Tá certo.

Como a comparação entre o caso Clinton-Lewinsky (dois adultos numa relação extraconjugal, mas consensual) e uma acusação, muito credível, de tentativa de violação por parte de alguém que, a ser confirmado para o cargo, terá um dizer vitalício sobre, entre outras coisas, os direitos reprodutivos das mulheres, é “politicamente incorrecto” e não a hedionda manobra de diversão que parece.

E resumir o interrogatório a “12 horas de pessoas a fazer perguntas […] sobre que música estava a dar numa festa há 35 anos” e ignorar o que foi basicamente um chorrilho de mentiras facilmente demonstráveis e manipulação emocional que, mesmo a não se confirmarem as acusações mais graves, deveria ser mais que suficiente para o desqualificar em termos de integridade moral e temperamental, não é uma manhosíssima memória selectiva dos eventos, é só o Portas a ser “politicamente incorrecto”, ‘tá?

Tal como equiparar o Trump (que, como sabemos, não resiste a agarrar uma vagina desprevenida) ao movimento #MeToo como dois extremos opostos e por igual censuráveis é ser bué da “politicamente incorrecto” e não um nojento troll normalizador duma cultura com a tendência para tratar as vítimas com hostilidade e os agressores com indulgência. E se ainda acham que isto são só americanices sem paralelo no lado de cá do Atlântico, espreitem a Relação do Porto e digam-me qualquer coisa.

Depois talvez fiquem a perceber porque é que, quando ouço alguém a declarar-se “politicamente incorrecto”, eu tenho o instinto de ouvir “estúpido, preconceituoso e intelectualmente desonesto”.