Vamos lá chamar os bois pelos nomes


A partir de que momento podemos chamar nazi a um nazi?

Eu sei o que estão a pensar. Também eu estou farto de falar do Trump. Mas não há como fugir-lhe. Façamos assim: leia o artigo até ao fim que no final eu ponho uma imagem de um gatinho fofinho para limpar o palato. OK?

Comparar Trump a Hitler não é, como diz o João Miguel Tavares no Público, o mesmo que “carimbá-lo como uma simples abjecção” nem é mera “caricaturização”. O Hitler não era uma “simples abjecção” e fazer a comparação não é incompatível com reconhecer as complexidades de ambos os casos.

Ninguém está a sugerir que o Trump é uma réplica genética perfeita do Hitler, clonada a partir de amostras do bigode recuperado de um U-boat em trânsito para a Argentina. Mas ninguém está a pôr essa hipótese de lado, também. A comparação é acima de tudo simbólica: a presidência Trump tem todos os sinais preliminares de uma tomada de poder fascista, e ignorá-lo na crença de que os mecanismos democráticos bastarão para o travar é uma atitude extremamente perigosa. Perdoem-me se não faço o esforço de destrinçar as nuances entre este e aquele discurso de ódio. Ainda por cima quando são os próprios apoiantes a reconhecer os paralelos.

Para compreender o Trumpismo é necessário compreender-se o “espírito do tempo”, sim, mas também procurar no passado referências que possam iluminar a actualidade.

Acerca das manifestações violentas que estalaram durante a palestra do Milo Yiannopoulos na Universidade de Berkeley, a TVI emitiu uma breve reportagem na qual o Milo é descrito apenas, pelas próprias palavras, como um “orador gay não particularmente conservador”.

Não é propriamente um truque, mas é mau jornalismo. O que não se fica a perceber pela peça da TVI é que o Milo é um dos agitadores mais tóxicos da alt-right (cujo CV conta com, entre outras, liderar uma campanha de assédio online à actriz Leslie Jones), basicamente um troll profissional. Obviamente, a violência foi deplorável, até porque este tipo de reacção está em exacta concordância com os objectivos do Milo e da alt-nazi, pois permite-lhe passar por mártir da liberdade de expressão. O que não é muito diferente do que faziam as SA nazis, já agora.

Mas — não me fodam! — chamar os bois pelos nomes não infringe sobre a liberdade de expressão desses bois. (Já agora, parece que a melhor maneira de trollar um campeão do politicamente incorrecto é chamar-lhe facho. Aparentemente, são facilmente melindrados por certas palavras.)

A bem do debate, se vos incomoda assim tanto, façam o seguinte: sempre que eu escrever as palavras “Hitler” e “nazi”, substituam-nas por outras que não vos arreliem tanto. Tipo: o Trump não é bem, bem o Megatron, mas fala e age como um Decepticon e isso é alarmante.

Parabéns, chegou ao fim do artigo. Como tínhamos prometido, aqui fica a imagem de um gatinho fofinho:

 

Eu disse gatinho? Queria dizer nazi a levar uma murraça.


Imagem de destaque da autoria de Vas Panagiotopoulos.

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