A série “Community” e o Universo Holográfico


Tenho há anos a convicção de que a série “Community” é secretamente um tratado sobre a Magia do Caos. Cheguei a entreter projectos de escrever um ensaio sobre o assunto, cruzando-o com o Modelo de 8 Circuitos de Consciência de Timothy Leary e o misticismo de G.I. Gurdjieff. Depois de acabar de ver a última temporada desta série, estou agora convencido de que é um tratado sobre a teoria do Universo Holográfico.

Mas antes, um pouco de contexto: “Community” é a série criada por Dan Harmon em 2009 que segue as aventuras de um grupo de estudo numa faculdade comunitária. Com uma história atribulada (diversos cancelamentos, o despedimento do criador e posterior re-contratação…), esta série ganhou o reconhecimento da crítica e culto entre o público, tendo ficado conhecida pelo humor auto-referencial e uma profundidade inesperada.

Community

Só não se deixem enganar pelas fotos promocionais idiotas nem pelo Chevy Chase lá atrás. (NBC)

Numa altura em que a série parecia ter sido definitivamente arrumada, eis que surge uma sexta temporada de originais, cortesia da Yahoo! Screen. E, como prova da inexperiência dos executivos da Yahoo! nestas andanças televisivas, cometeram o erro de principiante que nenhuma outra rede faria: entregaram o controlo criativo total ao instável Dan Harmon. O público agradece.

A sexta temporada de “Community”, que terminou este mês, é um labirinto de piadas meta-referenciais e só pode ser fruto de uma mente profundamente tortuosa. É um balanço e um comentário sobre as temporadas anteriores e percorre uma linha muito ténue entre o divertido e o simplesmente enervante.

É principalmente através do olhar de Abed (um cineasta amador com síndrome de Asperger, interpretado por Danny Pudi), que a série revela a sua auto-consciência, denunciando os clichés e as fórmulas à medida que se desenrolam. A sexta temporada de “Community” é tão, mas tão meta que, quando estamos a ficar irritados com as interrupções constantes de Abed, outro personagem intervém com uma tirada do género: “Pára lá com essa porcaria meta!”

“Tudo muito bem”, dirá o leitor, “mas o que é que isto tudo tem a ver com hologramas?”

Bem, o princípio holográfico é, em termos científicos, uma suposta propriedade da gravidade quântica que afirma que certos espaços tridimensionais podem ser matematicamente reduzidos a projecções 2D. A implicação, se não sou traído pelo meu domínio da ciência pop, é de que o nosso Universo 3D poderá ser, na verdade, a projecção virtual de uma imagem bidimensional sobre um horizonte cósmico massivo. Se isto parece uma coisa que um imitador fatela do Morpheus diria, não me culpem a mim: o princípio holográfico foi identificado há mais de 30 anos e continua a conquistar o consenso da comunidade científica.

morpheus

E voltamos a “Community”, uma série que vive e morre pela desconstrução de temas da cultura pop e em particular da televisiva. Nada mais apropriado, então: se o Universo tal como o conhecemos é um desdobramento de duas dimensões em três, a televisão é, essencialmente, o seu reverso, uma descrição da realidade em duas dimensões. É como se Dan Harmon nos estivesse a dizer: tudo isto é ilusão, um jogo de fumo e espelhos do qual não há fuga possível. Um reflexo de um reflexo de um reflexo de um reflexo.

Como que para confirmar a intencionalidade da associação, a última cena da temporada final da série, em aparente non sequitur, oferece-nos uma derradeira revelação (huh… spoilers?):

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