A SIC “Radical”, yo


São alguns os anos em que não vivo numa casa com assinatura de TV Cabo. Mas às vezes, quando visito algum amigo menos iluminado que eu, ainda costumo sintonizar a SIC Radical, mais por curiosidade mórbida do que por outra coisa.

E não desilude. Cada vez que a ligo, tenho acesso privilegiado a um espectáculo que tem tanto de deprimente como de decadente: um canal de televisão que consegue a proeza de transmitir o odor a ginásio fechado através das ondas hertzianas. Um autêntico fenómeno da natureza.

Querer Desver

Querer Desver

Muito do mérito pela programação de excelência deste canal se deve, certamente, à sábia gestão de Pedro Doucherie Mendes, o actual Director de Conteúdos da SIC Radical e Director Geral dos Canais Temáticos da SIC.

Estamos a falar de um gajo que, antes de ir para a SIC, foi director da Maxmen e da FHM (entretanto também foi júri no Ídolos, certamente por causa da sua longa carreira como flautista jazz), por isso não se poderia esperar que a SIC Radical reflectisse uma visão do Mundo propriamente progressista.

A bem dizer, a grelha de programação da SIC Radical está bem em conformidade com aquilo que imagino ser a psique do senhor Doucherie Mendes: algo como a versão televisiva de um quarto com tectos espelhados e cortinas de veludo, cujo ponto central é uma cama rotativa em forma de coração. E na cave desse quarto teórico, uma masmorra de indizíveis instrumentos de tortura sexual, correntes de metal e coisas de cabedal com espigões.

Na foto: Pedro Boucherie Mendes (Tess Aquarium)

Pedro Doucherie Mendes na festa de Natal da SIC (Tess Aquarium)

Basta uma breve vista de olhos pela programação para se ter uma ideia do que falo. Tentemos uma certa categorização, para simplificar a tarefa. Vejamos:

Programas que apelam ao nosso douchebag (lamento, mas não tenho mesmo expressão em português mais adequada¹) interior

Dragon’s Den UK: o mui radical programa em que quatro empresários (o mais radical de todos os profissionais de colarinho branco) de sucesso analisam as propostas de negócio de outros tantos aspirantes a empresário.

Undercover Boss: o radicalíssimo programa em que o patrão de uma empresa se infiltra entre os seus funcionários para saber o que eles realmente pensam de si. Tipo, a versão radical de um fura-greves.

Beverly Hills Pawn: o programa tão-radical-que-devia-ser-ilegal sobre uma casa de penhores, que lida com as divertidas consequências de uma economia em recessão.

European Poker Tour: ou o pano de fundo para uma festa na man-cave do Doucherie Mendes.

… E wrestling. Horas e horas de wrestling.

Programas que são super radicais (para uma avó de 80 anos)

Derren Brown’s Trick of the Mind: porque nada diz “radical” como “truques de ilusionismo”.

Kitchen Nightmares: culinária… RADICAL!!!

Dinner Impossible: não gostar deste reality show é uma… missão impossível! Ha ha!

Amazing Eats: mais… culinária radical?…

Programas que seriam perfeitamente aceitáveis nos anos 50

Bad Girls Club: empolgante reality show que põe “meninas más” à porrada para o bel-prazer do espectador masculino. Mi-au!

Deeper Throat: making off de um tributo àquele clássico da pornografia softcore tornado possível por abusos sexuais e maus tratos físicos brutais.

Tentei oferecer um apanhado transversal da programação do canal, esperando não ter caracterizado injustamente (mesmo que um tudo-nada hiperbolicamente) o conjunto global. Ora, sabendo que o público-alvo da SIC Radical são os adolescentes e jovens adultos portugueses, poder-se-ia inferir qualquer coisa acerca da psicologia dos mesmos. Mas não. Não quero entrar por aí.

Ainda tinha pesadelos parecidos com o quarto do Doucherie Mendes.


¹ É assim uma espécie de Zézé Camarinha que pertencesse a uma juventude partidária².

² O Benicio Steel Sky tem uma definição diferente.