Adam Sandler, Sugador de Almas


As boas notícias primeiro: “Pixels”, o novo filme do Adam Sandler e da trupe de ajudantes do Diabo que o acompanham parece estar condenado a ser um fracasso de crítica e bilheteira, com apenas $24M no primeiro fim-de-semana de exibição para os $88M de investimento. Isto pode significar que a estrelinha de Sandler se começa finalmente a apagar, e com ela talvez se extinga a longa linhagem de alarvidades que pretendem passar pelos “filmes de comédia” que ele e a sua entourage vêm impingindo sazonalmente.

A má notícia é, sempre, um novo filme do Adam Sandler.

Podemos ignorar a dolorosa evidência de que “Pixels” é, essencialmente, (mais) uma exploração cínica cujo processo criativo inteiro se resumiu a — tenho a certeza absoluta disto — uma decisão executiva de que era urgente fazer um filme que apelasse ao demográfico “geek”. Podemos até ignorar o facto de terem escolhido a forma mais preguiçosa e idiota para o fazer, limitando-se a conjurar algumas memórias nostálgicas de retrogaming (“Olha, o Pacman. Olha, o Donkey Kong. Olha, o Q*Bert”); ao mesmo tempo que põe actores com algum geek cred ao lado do protagonista: Josh Gad (porque não podemos ter um filme de geeks sem o gajo gordo e desajustado) e Peter Dinklage (porque todos os geeks adoram “Game of Thrones” e Sandler gosta de ter anões à sua volta). Podemos mesmo até ignorar a gritante misoginia (de resto já habitual nos filmes de Sandler) que coloca uma mulher como literal troféu para quem matar mais alienígenas. Mas não podemos ignorar que “Pixels” é um filme do Adam Sandler.

“Belo par de power-ups, jeitosa.”

Diz-se de um actor ou actriz que não se entregue a um papel que está “phoning it in”, a fazer de conta que faz. O Adam Sandler não sabe senão fazer de conta que faz. Toda a carreira do Adam Sandler é uma longa procissão de faz de conta.

Todos os personagens de Sandler encaixam num arco bem definido: começam por ser homens completamente esvaziados de emoções humanas, essencialmente man-boys cujo desenvolvimento pessoal foi interrompido (“50 First Dates”, “Billy Madison”, “Big Daddy”), tornando-os incapazes da mais básica interacção adulta (“Jack & Jill”, “Just Go With It”, “Anger Management”, “That’s My Boy”, “Podíamos Estar Aqui a Semana Toda a Listá-los”). Eventualmente, estes personagens irão, depois de uma série de peripécias hilariantes, improvável e inexplicavelmente tornar-se adultos completamente formados e aprenderão a relacionar-se de forma saudável com os outros e o mundo.

A única diferença entre Sandler, o personagem e Sandler, o actor, é que o último ainda não completou esta transformação de bebé em corpo de adulto num menino de verdade. Cúmulo da preguiça: Sandler passa a vida a interpretar-se a si próprio, mas não se dá sequer ao trabalho de o fazer bem.

Não é por isso de estranhar que as melhores interpretações dele sejam aquelas em que realizadores mais capazes (“Punch Drunk Love”, “Funny People”) o reconheceram por aquilo que é: não um cretino com um fundo bom, mas um cretino com problemas sérios. E sem grandes qualidades redentoras.

E daí, talvez Sandler seja o derradeiro auteur, e toda a sua filmografia seja na verdade uma extensa oeuvre sobre a mesma temática, uma superlativa expedição exploratória pelos mais profundos abismos do que há de mais medíocre na natureza humana, como nenhum outro cineasta se atreveu a empreender antes dele.

Se assim for, “Pixels” é um sucesso retumbante.

O Horror da Existência.

Meditando sobre os mistérios do Universo.

DISCLAIMER: o autor deste texto não viu “Pixels” nem faz a mínima intenção de o vir a ver, salvo numa bad movie night como as que costuma fazer com os amigos.