Birdman, ou Exactamente O Que Se Esperava De Um Filme Com Aquele Subtítulo


“This play kind of is starting to feel like a miniature, deformed version of myself that just keeps following me around and like hitting me in the balls with like a tiny little hammer.”

O que é mais engraçado no Birdman, ou A Inesperada Virtude da Ignorância (daqui em diante só Bird, por amor de deus) é a forma como ele se descreve a si próprio. Quando um personagem diz a outro para cortar umas linhas de diálogo da peça que estão a ensaiar porque são redundantes e não estão a acrescentar nada de novo, ele está também a informar-nos de que o filme já não tem mais nada a acrescentar e que tudo o resto vai ser um repisar daquilo que vimos até aí. Isto acontece 15 minutos adentro num filme de duas horas. Até essa altura até estava a gostar.

Melhor: comecemos por nos lembrar que o filme é sobre um actor (Riggan Thompson) e a sua tentativa de levar a bom porto uma peça numa tentativa de se convencer de que é um artista a sério, com algo para dizer, e com relevância. Depois passemos para a altura em que ele diz algo como “Esta peça está a começar a parecer uma versão miniatura, deformada, de mim próprio que não pára de me seguir e me bater nos tomates com um martelinho”. Obrigado, quatro escritores deste filme, é exactamente isso. Bird é uma versão miniatura e deformada daquilo que ele própria retrata. O problema é que usa um martelão e não um martelinho, frequentemente na forma de monólogos óbvios, por vezes gritados para a própria câmara. É um filme que nos pergunta insistentemente “PERCEBESTE? HÃ? PERCEBESTE?”, e quando nós respondemos, “sim, foda-se, percebi”, ele responde com “MAS PERCEBESTE MESMO, PERCEBESTE? HÃ? DIZ LÁ”.

Talvez seja deliberado. Afinal de contas, o filme usa como Riggan Thompson (um actor que entrou numa série de filmes de super-heróis – o tal Birdman; o Birdman 2 saiu em 92 – e cuja carreira depois disso esvaziou) o Michael Keaton (um actor que entrou numa série de filmes de super-heróis – Batman; o segundo filme saiu em 92 – e cuja carreira depois disso esvaziou). E usa como Mike Shiner (um actor Method insuportável com a puta da mania) o Edward Norton (um actor Method com fama de ser insuportável e de ter a puta da mania). Por isso talvez a semelhança entre o filme (o desespero, a vacuidade, o pretensiosismo, a redundância) e a peça seja deliberada.

do you get it

o filme e o seu público

O problema é que isso não faz dele melhor. Pelo contrário. A consciência de si próprio, toda a sua ironia e auto-reflexividade acabam por se revelar apenas como uma atitude defensiva que enfraquece ainda mais o filme. Um filme que já fede à frustração do Iñarritu com os monstros de bilheteira que são os filmes de super-heróis e com os críticos que não se deixam levar pelo formalismo esforçado, óbvio (aqui, um take prolongado que dura quase todo o filme, conseguido com efeitos digitais) dos seus filmes transparentemente Oscareiros com as suas actuações estridentes que parecem ter sempre em mente aquela altura nos Óscares quando passam um clip dos actores nomeados. Pelo meio ainda há cenas como aquela em que o Birdman se vira para nós e nos diz, em tom de desprezo, que o público gosta de filmes com acção e sangue e não com muito diálogo, filosóficos e deprimentes, no que parece ser basicamente uma tentativa de seguir o modelo Maeby Fünke (“é melhor dizer que gosto se não pareço estúpida”) de conquistar o público pelo ego (“vocês não são como eles, claro”).

No fundo, Bird é mais uma obra típica do Iñarritu: apontada aos Óscares como uma flecha do Robin dos Bosques apontada a outra flecha, e condenado a ser esquecido passado dois anos (a marca do verdadeiro filme de Óscar). Aliás, tal como os filmes de super-heróis a que o Bird se sente tão superior: igualmente efémero e obcecado com ouro, a diferença apenas que uns caçam ouro nas bilheteiras e outros no seio do onanismo mútuo da Academia.

Nota: eu sei que basicamente tudo o que escrevi depois do primeiro parágrafo é redundante e que me podia ter ficado por ali, mas não há problema, foi de propósito.

Categories