“Blade Runner 2049”, agora com estrilho


Foi só no cinema a que fui, ou os efeitos sonoros do “Blade Runner 2049” estavam estupidamente altos? Tipo, dolorosamente (em especial aqueles “tchãããããã”, espécie de vuvuzelas industriais que agora são da praxe nos filmes de ficção científica), de tal forma que faziam trepidar as estruturas metálicas do cinema onde o fui ver. Não havia necessidade. Se esta é uma tendência nascente nos cinemas, não me hão-de ver numa sala tão cedo.

E o filme é longo. Longo p’ra caraças. Alguns atribuirão isso aos planos pausados e ritmo espaçado da narrativa (já era assim o original, com uns comparativamente modestos 117 mins.); eu atribuo-o às cenas de acção inflacionadas e à estória escusadamente intrincada.

Compare-se com o primeiro “BR”: uns replicantes estão à solta e à procura do seu criador; um detective volta ao activo para os “reformar”; os replicantes encontram o criador mas acabam na mesma “reformados”; pelo caminho forma-se um romance entre o detective e a replicante de estimação do tal criador. Um bonito discurso à chuva, créditos, fim.

Sei que quem não gostou do primeiro critica-lhe precisamente a magreza do enredo. Pelos vistos, os escritores do “BR2049” acharam o mesmo e decidiram enfiar tudo no caldeirão: um vilão megalómano; uma Resistência; replicantes parideiras; duo amoroso replicante/holograma; um passado misterioso que pode ou não ser memória implantada; uma dinâmica pai-filho que pode ou não existir… A certa altura, a “chefa” do agente K diz que aquilo “quebra o Mundo”, como que para nos recordar que estamos perante uma cena bués da épica, ya? Reveladormente, algumas das pessoas que adoraram a sequela não gostaram do original por precisamente esta razão. Calculo que seja uma questão de sensibilidades — as minhas fazem-me definitivamente inclinar para o primeiro.

Eu sei que ninguém perguntou, mas o que é que eu faria para tornar a coisa melhor? Por exemplo, suprimia as cenas com o cabotino do Niander Wallace, algo que até ajudaria a evidenciar a arbitrariedade cega de uma mega-corporação… Eu sei que sou suspeito, porque acho o Jared Leto um canastrão que tanto alarde faz da sua imersão nos personagens que não nos permite ver outra coisa nelas senão a sua imersão nos personagens. E, como de costume, operou em tremendo overacting enquanto os seus colegas fizeram, e bem, exactamente o contrário.

Mais: retirava toda a subplot da Resistência replicante, que ao fim e ao cabo não faz avançar em nada às cogitações que são o suposto mote do filme; e que em termos narrativos não leva a lado nenhum. Aliás, reduzia quase a nada todos os diálogos expositivos, que não são poucos.

Mais: encurtava as sequências de acção aí para metade, excepto aquela em Las Vegas entre o Deckard e o K porque é mesmo, mesmo muito estilosa. Depois disso tudo, ficava-se com um filme de duas horinhas, todo fibra e sumo, só com as partes boas e nenhuma da gordura. Bolas, onde está o meu óscar?

As coisas que Villeneuve fez bem, fê-las tremendamente bem. Por exemplo, criou uma ecologia de personagens secundários peculiares que criam a sensação de um mundo vivido e que acabam por ser os mais interessantes do filme inteiro — e ao mesmo tempo a parte mais “Blade Runner” dele. Também ao nível de espectáculo visual e atmosfera é aquilo que se esperaria do realizador de “Arrival”: muito bom, com momentos quase brilhantes. Outra coisa de que gostei, de novo a contracorrente do que tenho lido: o personagem (e actuação) do Ryan Gosling, acusado de sonífero, não me merece senão a maior das simpatias. A referência a Kafka é relativamente evidente: alguém esmagado por uma sociedade que lhe é na melhor das hipóteses indiferente, na pior, hostil; maltratado pelos inimigos e instrumentalizado pelos aliados. O aparente estoicismo com que suporta as indignidades que lhe são dirigidas fazem dele um herói trágico perfeitamente Kafkiano.

Nas apresentações antes do filme, passou o trailer do “Thor: Ragnarok”, outro filme que explora de forma bastante consciente essa coisa do revivalismo dos anos 80. É essa também, pelo menos em parte, a razão de ser de “BR2049”. O problema da invocação nostálgica a que isto convida é o seguinte: serão de fiar as nossas memórias dessa época? Será que, ao conjurar as tropes cinematográficas desta época, não estaremos simplesmente a reproduzir uma distorção (um implante?), em boa parte fabricada muito após o facto? É quase garantido que sim. Não aprendemos com o “BR” que a nossa memória é, infalivelmente, falível?

O cyberpunk é um género notoriamente datado pelos 80s-90s, já por isso é que em matérias de futurologia falhou consistentemente (o “BR” original passava-se em 2019. Este, assumindo a anacronia, situa a acção no ano 2049, meros 30 anos no nosso futuro). Mais do que especulação tecnológica, o género sempre se preocupou mais em comentar sobre a sua contemporaneidade, as ansiedades e expectativas próprias da sua época. A obsessão da nossa cultura popular, em 2017, em revisitar essas preocupações antigas, acho, sugere algo de fundamental sobre os nossos tempos. O quê ao certo não sei, mas é algo inquietante — creio que terá a ver com uma inversão de marcha mais geral da nossa cultura…

Mas há, no entanto, um sinal positivo em “BR2049”, que pode até nem ter sido intencional: o Deckard rejeitando uma Sean Young devolvida à vida pela magia do CGI, dizendo que os necromantes que a ressuscitaram se haviam enganado na cor dos olhos.