Carne Ilícita Adolescente


Como um padre a masturbar-se enquanto ouve a confissão de uma adolescente sobre as suas aventuras sexuais (pré-maritais e tão, tão marotas), eis “O Fim da Inocência”, Carne Adolescente Ilícita à venda numa embalagem de pânico moral, para limpar a alma de quem lá vai para ver adolescentes a foder.

Antes de avançar, deixem-me só deixar claro que este artigo não é nem sobre o filme (que eu nem sequer vi) nem sobre o livro (idem), mas sim sobre a maneira como o filme está a ser vendido. É, basicamente, sobre um trailer e um artigo na Notícias Magazine. Pouco? Eu sei, mas tentem compreender, eu vi o trailer no cinema quando fui lá para o “Thor: Ragnarok”, e não é como se tivesse tido grande coisa em que pensar. Fiz contas às despesas que ainda ia ter até ao final do mês, iniciei um profundo inventário pessoal da minha vida, fiz breakthroughs psicológicos e alcancei uma profunda catarse emocional, e ainda só tinham passado cerca de cinco horas e meia da duração de mais ou menos dois dias do filme. Tinha que me ocupar com alguma coisa.

Ainda assim, só me voltei a lembrar disto por causa do tal artigo no Notícias Magazine.

Portanto, isto não é uma crítica do filme. A maneira como o filme se apresenta ao mundo, a maneira como se vende, pode ser enganadora sobre o conteúdo e perspectiva do filme. Pode.

Mas julgando o produto pela capa (nem sempre injusto), parece um exemplo perfeito de um familiar cocktail no que diz respeito às vidas privadas dos adolescentes: uma combinação tóxica de pânico moral com sensacionalismo e salacidade, um produto vendido com o sex appeal de jovens atraentes a mandar drogas e a fazer sexo, embrulhado numa censura moral (e a promessa implícita neste género de coisa que os seus personagens vão sofrer consequências nefastas pelos seus comportamentos) que é um vasto indulto ao seu público.

Os pânicos morais à volta da sexualidade adolescente parecem sempre ter esta perversidade, esta duplicidade, esta hipocrisia moralista, este Catolicismo. Fetichizam sexualmente corpos adolescentes — particularmente, as adolescentes: rapazes fodilhões e bebedolas são sempre mais bem aceites; as raparigas são vítimas, danificadas, talvez culpabilizadas como Lolitas, e quase invariavelmente condenadas a sofrer pelas suas acções (já agora, de notar que o autor do livro descreve como maior dificuldade “fazer raparigas maiores de idade parecerem adolescentes, fazerem sexo e drogarem-se”; raparigas, especificamente) — ao mesmo tempo que os censuram por fazer aquilo que gostam de os imaginar a fazer. O tom moralizante é o flagelo que purifica a alma do desejante, mas infinitamente ainda pior por ser dirigido sobre o desejado, ilibando o cliente.

Como é fácil imaginar o Diácono Remédios a salivar perante as promessas feitas pelo filme. Como é fácil imaginar o escritor do livro em que se baseia o filme a perscrutar ávido a vida privada de adolescentes, ofegante enquanto tenta extrair das entrevistadas relatos cada vez mais ousados; ei-lo semi-tumescente, as intenções sórdidas, a mente a escorrer de fluídos genitais, a visão atormentada por alucinações de adolescentes em orgias porno-químicas.

Injusto? Sim, quase de certeza. Não li o livro dele, e do tal artigo só sobressai a preocupação comercial do livro e do filme como motor maior de ambas as obras. Sobressai também a tentativa do artigo em balizar o pânico moral. Não sei se de facto a realidade demonstrada no filme é assim tão comum. Não tenho os dados. Nos Estados Unidos, por exemplo, parece que os dados disponíveis sugerem que os adolescentes actuais estão a fazer menos sexo, e mais tarde, que gerações anteriores. Se isso também se aplica a Portugal, não sei. Mas tenho por hábito duvidar destes pânicos morais, e neste caso há duas coisas que acho engraçadas. Uma no artigo em si, que pergunta ao elenco sobre as suas próprias experiências com deboche teenager, para ouvir respostas sempre dentro do “bom, não, não posso dizer que tenha sido assim comigo, mas de certeza que aconteceu com outros”.

A segunda é pensar em quem são os pais destes meninos bem (o filme é sobre adolescentes ricos de Cascais), e sobre a sua própria adolescência. Se os putos têm 15/16 anos, então, à partida, os seus pais são os sobreviventes de um outro pânico social. Foram os frequentadores da grande e epidémica expansão das discotecas, veteranos das festas de espuma e dos pastilhanços disco-night. Ao menos na altura o pânico moral sempre tinha mais razão de ser: era o tempo em que a SIDA ainda era um fenómeno novo e mal compreendido pela sociedade, um predador novo e letal à solta na (comparativamente) expandida liberdade sexual e independência adolescente; era o tempo em que a heroína estava a cavalgar como grande flagelo social. Será que os putos bem da Linha dos anos 80, princípios de 90 podem olhar para isto sem pensar, “peraí, há aqui algo de… familiar”?

Por isso não sei, mas duvido. Duvido que os adolescentes de hoje em dia tenham estilos de vida assim tão diferentes da minha geração, ou da geração anterior. Certamente que putos em coma alcoólico não são novidade (ainda me lembro de chamarem uma ambulância à minha escola quando estava para aí no oitavo ou nono para ir buscar um rapaz precisamente em coma alcoólico). Também não novidade: que provavelmente mais do que roermos as unhas e arrancarmos os cabelos por os adolescentes fazerem (sexo, drogas) seria mais salutar preocupar-nos em que eles saibam o que andam a fazer, como o fazer de forma segura e saudável, quais os reais perigos, e educar bem a miudagem sobre conceitos como “consentimento” (voltando aos Estados Unidos, lá os estudos sugerem que a maior parte dos estudantes não tem uma boa noção da coisa). Ter noção que provavelmente tentar convencer a miudagem a não fazer o que eles querem fazer com papões exagerados corre acima de tudo o risco de que, quando eles — quase inevitavelmente — constatarem que é falso que fumar um charro = uma vida como viciado em drogas, na rua, a vender o corpo e a partilhar agulhas, simplesmente percam totalmente a confiança em quem lhes mentiu e fiquem num vazio de informação sobre esta cena que eles se calhar querem experimentar. Que se a intenção é informar e alertar, talvez fosse melhor fazer um livro e um filme sobre exemplos positivos de comportamentos sexuais em adolescentes (isso sim, seria chocante para os Diáconos Remédios do país), e já agora desassombrado sobre as drogas, do que uma estória em que fazer sexo e mandar drogas é abrir as portas do inferno.

Quanto ao filme em si, é perfeitamente possível que consiga o equilíbrio entre mostrar o tal estilo de vida como atractivo e ao mesmo tempo como negativo, que consiga ultrapassar o limiar do “Do Not Do This Cool Thing”. Depois digam-me qualquer coisa.