Deambulação Documental


O tema do documentário parece estúpido. Não interessa a ninguém. É tão absurdo que um realizador apostou com o seu autor que se o filme fosse completado e exibido num cinema, comeria o seu próprio sapato. O documentário consiste quase inteiramente de pessoas a falar directamente para a câmara. Não ouvimos o entrevistador, não existe narração. Foi lançado para os cinemas em 1978 durante uma greve nos jornais de Nova Iorque, o que significava que nenhuma publicação Nova-iorquina escreveria sobre o filme, e isso seria fatal. Foi o primeiro filme do realizador, e se não fosse por dois críticos de Chicago (um mais que o outro, verdade seja dita), teria sido possivelmente o seu último. É ele que o diz.

O documentário é o ‘Gates of Heaven’ (não sei qual será o título em Português, se é que tem um, mas não é o filme chamado ‘As Portas do Céu’ – esse é o ‘Heaven’s Gate’ do Michael Cimino, que merece que se fale sobre ele, noutra altura), e é sobre os donos e alguns clientes de dois cemitérios para animais de estimação. A estória do filme, tanto quanto existe, é esta: um homem tenta realizar o seu sonho (criar um cemitério para animais de estimação), quase que consegue mas falha, o cemitério é fechado e os animais são transladados para outro cemitério. O filme está dividido em duas partes, a primeira dedicada ao criador do primeiro cemitério (Floyd McClure, nenhuma relação com Troy), a segunda ao dono do segundo cemitério (Cal Harberts), a sua mulher e os seus dois filhos, que também trabalham no ‘Bubbling Well Pet Memorial Park’. As duas partes são divididas por uma espécie de monólogo de uma cliente do primeiro cemitério que nos conta a sua vida toda, o neto que criou e que agora não lhe liga, a quem ela deu um carro (bom, ajudou com 400 dólares), porque ela é boa demais, mas agora isso acabou, agora ela vai atrás dele para receber o que lhe é devido, agora que ele tem um emprego de escritório.

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Um dos tais dois críticos de cinema – Roger Ebert – fala das suas experiências com o documentário: quando convidado a fazer uma palestra e mostrar um filme, era este que ele frequentemente escolhia, e o resultado era invariavelmente um debate sobre se o documentário estava a gozar ou a empatizar, se é uma sátira ou se é a sério.

O documentário mosta-nos McClure a falar com convicção sobre a necessidade de dar aos bichos um local de repouso condigno, diz-nos que nós gostamos uns dos outros porque somos humanos mas não confiamos uns nos outros, “mas o meu cãozinho, posso virar as costas ao meu cãozinho e eu sei que ele está ali atrás, é o meu amiguinho, ele não me vai saltar ou morder nem nada disso, mas os humanos não podem ser assim”. Fala-nos do seu ódio por “fábricas de reutilização”, que pegam em animais mortos e usam-nos para fazer toda uma gama de produtos (o mais famoso: cola) – McClure refere-se a uma visita a uma destas fábricas quando era criança: “estava a pisar o chão do Inferno”. O documentário alterna o McClure com o dono de uma dessas fábricas, que fala com um ar levemente divertido e ligeiramente incrédulo, do género “dá para acreditar nisto”, desta gente que se sente horrorizada com o que a fábrica dele faz; como se isto tudo fosse inteiramente absurdo. E talvez seja. O dono do segundo cemitério criou uma capela (com vitrais e um sino e tudo, por isso sabemos que é a sério), e ensina uma doutrina em que é claro que os animais também vão para o céu, porque um deus benévolo não iria descriminar com base no número de pernas usadas para andar.

Gozo ou empatia? Acho que o documentário pega no assunto pelo gozo – mais óbvio no que diz respeito a duas donas de cães que viram os bichos a serem transladados: uma delas é apresentada a fazer um dueto com o seu cão actual que antevê alguns dos momentos mais deprimentes do Youtube, outra numa composição absurdo-cómica vagamente Coenesca.

Mas depois vai mais além. O filme mostra-nos as pessoas de frente, a falar quase sempre directamente para a câmara. Algumas composições parecem deliberadamente cómicas, mas a câmara fica ali, impávida, até que a pessoa começa a ganhar mais dimensões, a ganhar mais volume. Tornam-se mais que uma piada. O documentário começa com um tema que parece pelo menos meio parvo, e torna-se sobre algo mais.

Vejamos os dois filhos do Cal Harberts, ambos numa espécie de percurso de vida interrompido. O mais novo, Danny, acabou a universidade, não conseguiu emprego e aceitou voltar para casa para trabalhar com o pai. O mais velho, Phillip, era vendedor de seguros, as coisas estavam a correr bem mas… Também voltou para casa e para trabalhar no cemitério. À volta dos dois, como à volta do Floyd McClure e dos seus investidores e das clientes dos cemitérios, há um ar de perda, de solidão, de necessidade de alguma espécie de contacto. Se o Phillip fosse um actor a interpretar um personagem inventado por um argumentista, era actuação para colecionar elogios e prémios. O discurso dele está cheio de chavões motivacionais, de positividade, de pro-actividade, de auto-confiança e optimismo; debaixo, sentimos que ele está no limiar da depressão ou para além dele, que a vida dele colapsou de alguma forma profunda e inexplicável, que os sonhos dele já estão no passado, e que ele está a tentar desesperadamente dar ordem ao caos. O Danny, que mora no topo de um monte sobre o cemitério, voltou da universidade com um coração partido e sem rumo; não sai de casa, fica por lá a gravar músicas. Tinha sonhos de sucesso musical, mas os anos vão passando, o futuro vai ficando mais curto. Mas os sonhos, diz o Danny, são bons, é bom ter algo de positivo em que pensar. Por vezes, ao fim da tarde, depois de toda a gente ir embora, põe os amplificadores cá fora e põe-se a tocar guitarra; dá para ouvir por todo o vale.

Sobre o Vale


P.S.: A tal aposta que envolvia comer o próprio sapato, já agora, foi levada a cabo. O realizador era o Werner Herzog, e a coisa resultou num outro documentário, uma curta, chamada ‘Werner Herzog Eats His Shoe’ (literalmente “Werner Herzog Come o Seu Sapato”). O realizador dessa curta realizou mais tarde um outro documentário, “Burden of Dreams” (também sem título em Portugal), sobre a produção atribulada do filme ‘Fitzcarraldo’, do Werner Herzog. O Errol Morris sempre teve uma carreira depois deste filme – uma carreira excelente, cheia de documentários brilhantes, um dos quais (‘The Thin Blue Line’, ‘A Verdade Contra Tudo’ em Portugal) foi possivelmente a razão de um homem ter sido libertado da cadeia depois de condenado por um homicídio (de um polícia) que não cometeu. Morris aparece no documentário ‘Life Itself’, sobre o crítico de cinema Roger Ebert, para contradizer a acusação de que o populismo do Ebert reduzia o espaço a filmes fora da mainstream: Morris atribui ao Ebert e ao seu colega Gene Siskel (o outro crítico de cinema) a defesa e promoção do ‘Gates of Heaven’. Pela mesma razão aparecem vários outros realizadores, entre eles o Martin Scorcese e outra vez o Werner Herzog, que descreve o Ebert como “um soldado do cinema; é um camarada ferido, que já nem consegue falar, e que continua a avançar”, e no processo transforma-o num personagem Herzoguiano.

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