Dias (sexy) de Stallone


Derrotado pela insistência dos Hollywoods e AXNs em esbofetear-me com as duras e suadas carnes do Sylvester Stallone, vejo-me reduzido a ponderar a carreira do homem em tempos conhecido como o “Garanhão Italiano” (em defesa de quem lhe deu alcunha, aquilo rima em Inglês). Provavelmente ninguém o diria na altura (excepto o próprio), mas o Stallone é o último dos ciborgues de carne dos anos 80/inícios de 90 ainda de pé. Quando o Schwarzenegger se transformou naquela velhinha que anda nos metros de Nova Iorque e que saca hilariantemente de um pistolão quando aparece um bandido; quando o Golem de sebo Steven Seagal se vê reduzido a séries pseudo-reality surreais; quando o Van Damme foi, se não me engano, vendido a uma fábrica e abatido para fazer cola; eis Stallone, a re-emergir do Vale da Estranheza numa neblina colorida por luzes neon, músculo, osso, silicone, a bactéria do botulismo e cabelo de fibra sintética esculpidos numa forma mais ou menos semelhante à que ele tinha há umas décadas atrás, mantidos no lugar por uma combinação horripilante de espartilhos, cintas, arneses, fivelas, aloquetes e quejandos.

Vivo, ainda vivo. Mesmo que à custa de auto-canibalismo. O Stallone sempre foi um tubarão das bilheteiras, um predador a tentar cheirar as fraquezas do público, a estudar o melhor ângulo de ataque para lhes ir à carteira, disposto a tudo. A popularidade dele não se baseava em nenhuma característica do actor em si, mas sim no apelo do Rocky (o Forrest Gump dos anos 80, uma fantasia da direita americana em que um atrasado mental branco se superioriza a negros nas arenas, literais e não só, em que eles tinham triunfado) e do Rambo (Rocky versão Stress-Pós-Traumático). Depois de ter derrotado um pastiche do Muhammed Ali (o avatar perfeito da emancipação dos Afro-Americanos) e de ter re-combatido e vencido a guerra do Vietname pelo lado da ‘Merica, não admira que o Stallone fosse popular. Mais revelador é que nenhum dos filmes em que ele não fazia de R(ocky/ambo) tenha sido comparativamente popular; o Sly nunca poderia funcionar como Schwarzenegger porque passava sempre a ideia de que se levava demasiado a sério (por ‘demasiado’ entenda-se ‘minimamente’). O Swcharzenegger conseguia acabar uma cena “séria” de drama familiar dizendo à sua esposa uma one-liner fatela (“you shouldn’t drink and cook”, qualquer coisa como “se cozinhares não bebas”); o Stallone teria levado aquilo a sério, como se estivesse num filme do Cassavetes, e teria feito figura de parvo, mas não da maneira fixe.

Consideremos Cobra.

Escrito pelo Sly em pessoa (tal como Rocky), é uma espécie de extracto de todo aquele ciclo de filmes de Apocalipse social, de polícias que não seguem as regras ou de vingadores por conta própria, em que o sistema judicial é ignorado em favor da boa velha ultra-violência aplicada directamente aos criminosos. Um filme tão clinicamente construído para maximizar a sua popularidade nos termos do seu género que bastava empurrar um bocadinho para ser uma paródia, mas em vez fica-se por uma autópsia acidental do seu próprio género cinemático. Ou olhemos para o Tango & Cash, a mesma coisa, mas desta vez para filmes de buddy cops tipo 48 Hrs. e Lethal Weapon. Ambos péssimos, ambos transparentes no seu desejo de explorar um filão bem conhecido e já praticamente esgotado, ambos tarde para apanhar a festa.

Sempre óbvio, monumentalmente óbvio. Vejam-no agora nos anos ’90. Adeus, durão machão imperturbável e imbecílico. Olá, homem de acção esperto e sensível, ora perturbado pelas consequências da sua violência (The Specialist), ora mantendo-se razoável e conciliador, suprimindo o seu macho-alfa natural (Daylight, Cliffhanger) para o bem comum. Este Stallone ouve música grunge e Tori Amos e Dead Can Dance. Este Stallone não gosta de violência, mesmo quando a sua profissão é ser assassino (Assassins) ou explodir com coisas (The Specialist outra vez). Pensem nele como um predador sexual quarentão a navegar discotecas em busca de raparigas adolescentes-legais. Há que se adaptar às fads, às trends, ao que está in, para poder ferrar o dente na presa.

Mas à media que a década ia chegando ao fim parecia que algo de inevitável estava a acontecer, e que também este dinossauro ia ser reduzido a filmes Z, esmagado pela sua própria irrelevância, finalmente asfixiado pela sua crescente obsolescência. Que privado das orgias de acção que eram o seu habitat natural, o Stallone iria sucumbir ao peso de ser um mau actor, bonito da maneira que um acidente automóvel entre dois veículos de transporte de animais é bonito, e completamente secante.

Acontece, para nosso azar, que estávamos prestes a entrar numa era em que ser irrelevante e obsoleto até pode ser uma mais-valia no que a filmes diz respeito, e que como qualquer bom ciborgue, o Stallone não morre à primeira. E então aí estava ele, o caçador nocturno de volta, a sua erecção salva por uma combinação horrível de químicos e mecânica avançada e pronta a entrar em acção e deixar mais umas tantas vítimas com algo de que se arrepender.

Cheirou-lhe a sangue, leu o terreno e viu um cinema auto-reflexivo, obcecado com nostalgia ao ponto de regressão, encravado em reeboots, re-adaptações, revisitações e a exploração em geral de todas as marcas, nomes e memórias colectivas da Cultura Pop. E claro, tratou de ele próprio embarcar no seu eterno regresso às glórias do passado, com mais um filme do Rocky e outro do Rambo, mas principalmente com The Expendables, de todos o mais irritante por ser o mais transparentemente explorador. Em teoria uma revisitação irónica dos icones dos filmes de acção em que a imagem do Stallone está cimentada, mas feita com ironia falsa por alguém que não tem um sentido de humor sobre si próprio e que se leva completamente a sério. Há qualquer coisa de profundamente repulsivo nestas coisas. Provavelmente seria a série de filmes mais irritante da irritante carreira do Stallone se não fosse pelo facto de, inspirado por estes sucessos, ter decido fazer uma coisa em que ele e o Robert De Niro interpretam velhos pugilistas rivais, sugerindo que o Stallone acha que o Rocky e o seu Rocky Balboa estão no mesmo patamar que o Raging Bull e o Jake LaMotta do De Niro.

Enfim. Pode ser que alguém o mate.

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