Diversidade, O Filme


Um cowboy, um índio, um Mexicano e um Chinês entram num saloon… Não sei o resto da anedota porque adormeci a meio do “Magnificent Seven” (Antoine Fuqua, 2016), mas deu para perceber o esforço de diversificação a que o casting foi sujeito. Dos 7 do título, um é Nativo Americano (Sensmeier), um é Sul-Coreano (Lee), um é Mexicano (Garcia-Rulfo) e um é o Denzel Washington.

A intenção só pode ser aplaudida e insere-se num contexto em que um bom número de filmes produzidos em Hollywood são acusados de whitewashing. O termo refere-se à tendência de pôr actores branquelos a interpretar personagens de outras etnias. É uma tradição que vem de longe, obviamente, mas é recente este crescente escrutínio. Um exemplo que se tornou notório é o “Prince of Persia: The Sands of Time”, em que puseram o Jake Gyllenhaal a interpretar um… príncipe persa?

Nailed it!

Nailed it!

(Um exemplo mais recente é o do “Doctor Strange”, em que a britânica Tilda Swinton interpreta um papel que era originalmente de um homem Tibetano. A actriz ofereceu alguns argumentos bastante sensatos para esta opção, que são os de evitar o óbvio estereótipo condescendente que a personagem original era. Mas quando toda a história de origem do Doutor Estranho assenta numa trope bastante racista, torna-se um bocado difícil contornar a questão.)

Ainda que não duvide das boas intenções do realizador, algo em “M7” soa artificial. Talvez funcionasse se aos personagens fosse dado algo mais do que um único atributo, correspondente a um estereótipo da etnia de cada um. O Mexicano (fora-da-lei desesperado) mexica, o Chinês (perito em facas) chinesa e o Comanche (nobre selvagem) comancha. O Denzel washingta.

São todos personagens que poderiam, em teoria, encontrar-se no Wild West, sim, mas estão longe de ser representativos da realidade da época. O problema deste tipo de diversificação “por comité” é resvalar-se para um tipo diferente de branqueamento: o de falsear as condições extremamente merdosas a que essas comunidades estavam realmente submetidas.

Um caso diferente: esta nova tranche de filmes “Guerra das Estrelas”, cuja variedade tem gerado tanta simpatia quanto animosidade — basta ver a quantidade de fanboys que se mijaram de nervos por verem um negro ao leme do “Force Awakens”.

Diferença do “M7” para o “Rogue One” (e com o “Force Awakens”, lá por isso): no segundo, as etnias dos actores não têm qualquer relação com a personagem, não são referenciadas explicitamente — estão simplesmente lá e funcionam como textura. Um dos momentos que me fez sorrir no “Force Awakens” foi quando um dos maus de serviço falou com um espesso sotaque escocês: não havia razão nenhuma para escolherem ou não escolherem um actor escocês para esse papel — e isso é significativo.

Rogue One cast

Esta diversidade funciona bem no universo “Guerra das Estrelas” porque é que aconteceria se tivessem sido abolidos os referenciais raciais e nacionais. No fundo esteve sempre presente, nem que fosse em pano de fundo. Atente-se na variedade de espécies que se cruzam sob o mesmo tecto em Mos Eisley. O Espaço, numa space opera como a “Guerra das Estrelas”, funciona como uma espécie de zona franca, uma Interzone Burroughsiana, ponto de encontro de milhões de culturas e etnias completamente diferentes. O Império é uma reacção (de reaccionário) contra esta ordem das coisas e isso vê-se pela sua homogeneidade: os seus agentes são quase sempre humanos, homens, brancos.

Aí reside, acho eu, umas das virtudes menos reconhecidas da visão do George Lucas: um futuro (ou passado muito, muito longínquo, decidam vocês) em que a exploração espacial tenha empurrado a espécie para uma autêntica mestiçagem, de que a diversidade de formas e feitios é a natural consequência. A diversidade étnica do casting dos novos filmes põe-os simplesmente a par da variedade de gadgets que enchem o ecrã.