Dois filmes (muito diferentes) sobre a cultura corporativa


O primeiro é a adaptação a filme de uma peça escrita por David Mamet, que acompanha o (mais do que ligeiramente) patético dia-a-dia (para ser exacto, é mais noite-a-noite) de uma equipa de agentes imobiliários.

O segundo é a adaptação a filme, realizada por Martin Scorsese, de um livro autobiográfico escrito por Jordan Belfort, antigo corretor de bolsa condenado por uma lista de crimes de fraude e manipulação de mercados que deixaria o Gordon Gecko inchado de orgulho.

"Um dia, Jordanito, tudo isto será teu!"

“Um dia, Jordanito, tudo isto será teu!”

Ambos têm algo para dizer sobre a cultura corporativa; os dois são diametralmente diferentes. O primeiro é “Glengarry Glen Ross” (1992) e o segundo “The Wolf of Wall Street” (2013).

Uma das cenas mais icónicas do “Glengarry Glen Ross” (GGR) envolve um discurso de Blake, personagem interpretado por Alec Baldwin, que é um dos vendedores de topo da firma. O discurso tem o objectivo de motivar os vendedores, mas acaba por funcionar com uma estrondosa denúncia da mentalidade corporativa. O resultado é uma caracterização bastante expressiva da psicopatia que está no fundo de uma boa parte do modus operandi destas organizações. Se acha o termo “psicopatia” excessivo, espreite este artigo da Forbes.

Do outro lado do espectro, é como se “The Wolf of Wall Street” (TWoWS) fosse narrado do ponto de vista do Blake. Todos nele são, sem excepção, impiedosos tubarões (pronto, lobos), máquinas extremamente afinadas de fechar negócios. Em GGR, os vendedores (e particularmente o protagonista) habitam o fundo dessa mesma cadeia alimentar: relativamente ineptos ou aquém da sua forma plena, tentam desesperadamente impingir vendas com níveis de sucesso modestos. Apropriadamente, o título do filme refere-se ao conjunto de leads de vendas mais cobiçado da firma que, como a proverbial cenoura que se acena à frente do burro, será a recompensa para o melhor vendedor dessa semana (os restantes, avisa Blake, serão despedidos).

É verdade que há poucas personagens tão capazes de inspirar piedade (é mesmo assim, no sentido mais católico da expressão) como um vendedor porta-a-porta, cujo hálito transparece sempre mais que uma notinha de desespero. Fico sempre com vontade de os convidar a entrar e ficar a fazer-lhes festinhas em frente à lareira. Não lhes compro nada, é claro; como acontece com os ursos, não é recomendável que se alimente um vendedor. Que depois ainda nos enchem o correio de prospectos e brochuras.

Ao ver o filme de Scorsese, ficamos com a sensação que aquilo que o realizador pretendeu fazer era menos uma crítica do que um romp bem humorado, uma comédia meio absurda com elementos de humor físico (quem diria que o DiCaprio fosse capaz de semelhante ginástica!) e boa dose de improviso. Infelizmente, é humor feito às custas do que foi, certamente, o sofrimento bem real de milhares de pessoas — as vítimas de Belfort. O resultado inadvertido é que esta abordagem (ainda por cima com a energia e vivacidade que são características dos filmes do realizador) leva a que o elemento paródico seja ignorado e a que o espectador se identifique, primeiramente, com o criminoso. Nunca a manipulação de mercados pareceu tão divertida!

Quem nunca sonhou que atire a primeira pedra.

Sonhar alto.

Num aparte: para quem ache que o TWoWS exagera ao retratar os corretores como umas bestas juvenis e uns javardolas do pior (ver imagem acima), espreite também este artigo. Nele, um repórter relata a sua experiência como penetra numa festa de uma fraternidade secreta de Wall Street.

Uma das qualidades dos filmes de Scorsese é a forma como ele empatiza — e nos faz empatizar — com todas as suas personagens, mesmo as mais réprobas. O TWoWS é bastante reminiscente de um filme mais antigo seu, o “Goodfellas”, também uma adaptação a cinema de um livro autobiográfico. Ambos contam a estória da ascensão e queda de um indivíduo de ética bastante reprovável. O primeiro passa-se nos meandros mais chungosos da máfia italo-americana, o segundo nos elegantes escritórios envidraçados de Wall Street. Isso já diz qualquer coisa, acho. O problema deste último, acho eu, prende-se com a opção de manter as vítimas na obscuridade: em nenhum momento nos são mostradas as consequências que as peripérias de Belfort tiveram na vida dos seus alvos. Em “Goodfellas”, quando Henry Hill se envolve no assassinato de outro wise guy, as consequências mórbidas são mostradas em detalhe. E, à distância, até conseguem ser engraçadas.

A diferença compreende-se, se tivermos em conta que o livro de Belfort (que entretanto anda a ganhar a vida como palestrante motivacional) soa mais a gabarolice do que a penitência. Num artigo interessante escrito pelo advogado do Ministério Público que esteve envolvido na investigação e acusação de Belfort, são enumeradas as diversas “inconsistências” no relato das façanhas descritas no livro. Como consequência delas (e da publicidade extra gerada pelo filme), Jordan Belfort está actualmente em negociações com uma cadeia televisiva para apresentar o seu próprio reality show. Belfort transformou-se, literalmente, no Blake do GGR, a vender a ladainha corporativa a vendedores meio desesperados por aumentar as taxas de conversão — e a ganhar uma boa fortuna no processo. Num evento no Dubai, Belfort disse “Irei ganhar mais dinheiro este ano do que no meu melhor ano como corretor.” No seu famoso discurso, o Blake diz “Como é que me chamo? Vim para aqui a conduzir um BMW de 80.000 dólares, é assim que me chamo.”

E agora VOCÊ também pode aprender a ...

Who let the dogs out! (Ralph Zuranski)

Acaba por não ser surpresa nenhuma que tanto o “The Wolf of Wall Street” e o “Glengarry Glen Ross” (assim como o já mencionado “Wall Street”, de 1987), tenham sido adoptados como exemplo a seguir por empresários, corretores e vendedores, a quem o elemento de denúncia passou completamente ao lado. Mesmo à distância de quase 30 anos, podemos encontrar inúmeros exemplos das frases mais inspiradoras ditas pelo Gordon Gecko. Greed is good!

No fundo, é como se estivéssemos num universo Phillip-K-Dickiano, em que realidades paralelas, facto e fantasia, se influenciam mutuamente. A realidade, agora e sempre, supera a ficção.

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