E os homens, pá?!


O que têm de novo os incels, assim auto-denominada uma sub-cultura de homens altamente misóginos e politicamente radicalizados, para que se fale tanto neles? O celibato não, que não é novidade. Não tenho os números, mas arriscaria dizer que a maior parte do celibato em idade adulta é involuntário. Talvez seja, então, o facto de que só nos últimos 4 anos tenham estado directa ou indirectamente ligados ao massacre de pelo menos 16 pessoas.

Não é de todo surpreendente que trafiquem em ideias políticas extremas porque, sim, a economia sexual é naturalmente algo político. O que os incels desejam acima de tudo (e muitos até o dizem explicitamente) é retirar agência às mulheres, que inclui a agência de os rejeitar enquanto parceiros sexuais. Gamergate, MRAs, “artistas de engate”, friendzones, alt-righters, tipos “despertos”, anti-politicamente correctos, fazem todos parte desse mesmo boião de cultura, em que fermenta todo o estilo de misoginia e niilismo.

A cultura geek está, infelizmente, impregnada desse espírito e não é inteiramente inocente na criação de um clima de onde emergem casos mais extremos como os incels. Há toda uma indústria de entretenimento dirigida a jovens adultos predicada na ideia de que homens anti-sociais e indesejáveis merecem a parceira sexual dos seus sonhos. É central, aliás, a ideia que lhes é devida validação social e gratificação sexual, apenas por virtude de serem humanos superficialmente decentes. Os incels fazem parte duma geração (em que me incluo) alimentada pela cultura popular com uma fantasia insistente: a do pária social, inicialmente rejeitado pelo objecto de afeição (invariavelmente: uma mulher belíssima) que após uma série de peripécias é finalmente vingado aos olhos dos seus atormentadores (as mulheres cruéis e os machos alfa). O “Ready Player One” (que não vi) segue exactamente esta fórmula, em que o protagonista masculino passa de stalker a príncipe encantado depois de salvar a donzela em apuros. Recentemente, gostei de ver o “Wet Hot American Summer” subverter essa expectativa: a miúda gira percebe que tem mesmo hormonas de adolescente e que é mais compatível sexualmente com o cretino bonzão do que com o cromo bonzinho.

Mas hoje em dia o fenómeno geek já não pode reclamar o estatuto de underdog por quem é suposto torcermos: são uma indústria multimilionária que domina boa parte da paisagem cultural pop.

É por isso que é importante entender que os homens são tão beneficiários do feminismo quanto as mulheres. O feminismo, ao combater noções de masculinidade tóxica (ao dar-lhes esse nome, por exemplo), ajuda a libertar os homens de uma série de expectativas frustrantes e em última análise prejudiciais para eles próprios. Como a de que são, por exemplo, os responsáveis por providenciar para e proteger o “sexo fraco” e que se não são capazes de o fazer estão de alguma forma em falta para com seu chamamento natural. Ou que o seu valor está indexado à qualidade do troféu em forma de gaja que, não importa por que métodos, conseguirem sacar.