Este mundo é um faroeste


E não estou a falar do Trump. Não me ponham a falar do Trump. Só me apetece enrolar-me em posição fetal (ou naquela que os manuais de segurança dos aviões prescrevem em caso de emergência) durante os próximos quatro anos. Não quero falar do Trump.

Podemos antes falar de assuntos levezinhos, tipos séries de televisão e de como a realidade é uma prisão criada por um falso deus demente?

Estou a falar de “Westworld” (“WW”), que a HBO estreou em Outubro e sobre a qual, na minha tradição de ler demasiado em produtos de entretenimento popular, tenho umas ideias… Baseado num filme de 1973, o cenário (bastante absurdo) do “Westworld” é um parque de diversões temático onde os visitantes interagem com inteligências artificiais que replicam de forma perfeita o ser humano.

Bem sei que a temporada ainda vai no adro e que é prematuro conjecturar sem ter o quadro completo. Mas também pode ser que o ”WW” dê uma de “Lost” e que as respostas que der serem bem menos interessantes do que as questões que levanta. É o cenário mais provável, acho, agora que confirmaram que haverá uma segunda temporada.

Mas, então, o que é que isto tem a ver seja o que for com deuses dementes? Que pergunta estúpida. É óbvio, não é? “WW” é muito menos fábula sobre inteligência artificial do que alegoria gnóstica.

Diga lá outra vez? O gnosticismo é uma ancestral corrente filosófica-religiosa que assenta na ideia de que o mundo material é a criação do demiurgo, um deus menor ou falso. O ser vivo seria então um prisioneiro deste universo ilusório, longe da sua natureza espiritual — e divina. Tal como os replicantes (na série chamam-lhes Anfitriões) são prisioneiros daquele mundo de faz-de-conta. Ah, spoilers:

Em “WW”, os Anfitriões estão condenados a repetir ciclicamente a mesma série de comportamentos pré-programados. Quando morrem (e, graças aos Hóspedes, estão sempre a morrer de formas horríveis) são reparados e devolvidos à proveniência com as memórias apagadas. Não é muito diferente do que entendemos por reencarnação, pois não? No “WW”, os problemas começam quando os robôs (ou replicantes ou lá o que lhes quiserem chamar) começam a reter as memórias entre iterações — é a partir deste ponto que ganham real autodeterminação e se revoltam contra os seus captores.

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O gnosticismo da antiguidade também definia uma classe de entidades “angélicas” (ou “demoníacas”, dependendo do ponto de vista) que mantinham a criação do demiurgo na linha: os arcontes. Em “Westworld” esse papel é desempenhado… pelos humanos. Os visitantes milionários do parque divertem-se a torturar os replicantes, auxiliados pelo facto de estarem numa espécie de god mode permanente. Quando uma Anfitriã ganha subitamente consciência durante uma intervenção técnica, ela vê os humanos que a manipulam como literais deuses.

À entrada do parque estes semi-deuses escolhem entre um chapéu branco e um chapéu preto. Mais do que a forma clássica de distinguir bons e vilões num western, é uma metáfora visual simples para a luta eterna entre o Bem e o Mal (ou material e espiritual), o dualismo radical presente em quase todas as tradições gnósticas.

Westworld

Ah, e não esquecer o labirinto que está no centro do enredo e que é procurado por várias personagens, o McGuffin da história. O labirinto tem um papel importante na literatura gnóstica, já que é uma representação da trama de ilusões cujo centro o iniciado tem que encontrar para atingir a iluminação.

Quanto à identidade do demiurgo, a série é bastante explícita: o fundador do parque, Robert Ford (Anthony Hopkins), diz que “WW“ “não é um negócio, não é um parque, é um mundo completo. Desenhámos cada milímetro dele, cada lâmina de erva… Aqui, somos deuses. E vocês são meramente nossos hóspedes”. Demasiado subtil?

Westworld

Pronto, o Hannibal Lecter é Deus. Ao menos não é o Trump.

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