Everybody loves Nilton


P.: Qual é a coisa, qual é ela… Que tem quatro olhos, um microfone e nenhuma graça? R.: É o Nilton.

Achei apropriado, pois este é o tipo de humor que podemos esperar desta espécie de “humorista”. A sério. O Nilton está para o humor como o Pedro Chagas Freitas para a literatura: ambos são muito, muito maus. E ambos conseguiram inexplicavelmente afirmar-se na respectiva profissão. Talvez esteja a ser injusto na comparação: o Chagas Freitas tem, pela natureza da profissão que escolheu, a vantagem de não aparecer tanto à frente das câmaras.

Consideremos aquilo a que o Nilton chama de carreira.

Se a memória não me falha, o grande público familiarizou-se primeiro com a sua cabeça gigantesca através do “Levanta-te e Ri”. Este programa foi uma iniciativa da SIC, que teve a ideia peregrina de criar um show de stand-up comedy num país em que não existia uma cultura estabelecida neste tipo de comédia; notavelmente, praticamente não existia (e não existe à data) uma “cena” de clubes e bares de comédia que são, no resto do mundo, as incubadoras fundamentais para a gestação e desenvolvimento de profissionais desta delicada arte. Não é revelador que não haja sequer um termo em português para me referir a ela?

A solução: transplantaram todo o tipo de engraçadinhos — contadores de anedotas, malucos do riso, revisteiros… — para o palco da stand-up, a maior parte com pouca ou nenhuma experiência (ou sequer conhecimento do que é). Os resultados, como não podia deixar de ser, são na melhor das hipóteses olvidáveis; na pior, execráveis.

Quem?

Ou ambos.

Mas nada disso tem a ver com o Nilton. Que, afinal, já andava a tentar singrar na stand-up desde os anos 90. De qualquer modo, o meu azedume não tem nada a ver com as credenciais do Nilton. A sério.

Tudo se resume a um aspecto (que afinal tem outros tantos implicados): o Nilton não tem piada. Rigorosamente piada nenhuma. E, o que é pior, tem aquele ar presunçoso de alguém profundamente satisfeito consigo próprio.

Vejamos aqueles que são alguns pontos altos da sua obra humorística: uma catchphrase (“Eu amo você”) irritante, que só não lhe valeu um soco nas trombas porque não lhe calhou cruzar-se comigo na rua; partidas telefónicas, uma coisa a que se costuma deixar de achar piada mais ou menos pela mesma altura em que nos surgem os primeiros pêlos púbicos; humor observacional que faz as piadas sobre a comida nos aviões parecerem uma coisa de vanguarda; e uma sucessão quasi-infinita de hilariantes trocadilhos (espreite o Facebook dele — não vou partilhar aqui o endereço — mas não diga que não avisei).

Então, uma questão se impõe: se acreditamos que o Nilton é uma fraude como humorista (a sério. Tente ver 5 minutos do “5 Para a Meia Noite”), como explicar o seu razoável sucesso? É simples e é algo mais que tem em comum com o Pedro Chagas Freitas: ambos são exemplos acabados de um moderno homo empreendedorum. O sucesso de Nilton só se explica pelo facto da conjuntura actual ser extremamente favorável a este tipo de fura-vidas.

O Nilton é, por admissão própria, um self-made man, um workaholic, um trabalhador diligente, um gajo que vai a todas. É de gajos como ele que este país precisa. A sério. Se restassem dúvidas, uma entrevista ao Diário Económico (humor!) encarrega-se de as dissipar: nela, discorre sobre a crise económica, faz a apologia do actual governo, insurge-se contra as manifs, lamenta-se que vivamos acima das nossas possibilidades, deseja que sejamos todos “mais empreendedores”, etc. Ou seja, revela que tem a lição bem estudada, como trabalhador diligente que é. Ele, como Portugal, é o bom aluno da Europa.

Tão amigas que elas são.

Tão amigas que elas são.

Que é como quem diz: o Nilton é um parasita da pior espécie — é um parasita bem sucedido.