Filmes de Gajas: Para Gajas, Contra Gajas


Ominosamente, umas semanas antes do Dia dos Namorados, um dos canais de cabo (o Hollywood, provavelmente) decidiu arrancar dos arquivos o “Pretty Woman: Um Sonho de Mulher”. Inevitável, mas apropriado: com a adaptação a cinema do “50 Sombras de Grey” (daqui em diante só ’50’, por amor de Deus) a aproximar-se no horizonte, ficámos ensanduíchados entre o filme que, provavelmente, refundou na sua forma moderna a fórmula romântica de Hollywood, e o lançamento de um outro filme que de certa forma representa a sua apoteose, uma espécie de conclusão tristemente apropriada àquela outra estória em que uma mulher é comprada e comodificada por um milionário. Se combinassem os dois, teríamos algo observador do “chick-flick” (ou filme para gajas) romântico. Provavelmente ainda temos, mas só de forma tristemente acidental.

É engraçado que o “50” se promova com uma frase do género “todo o conto de fadas tem o seu reverso”. Na verdade é exactamente esse “conto de fadas”, com tudo o que isso tem de venenoso, mas com armamento actualizado. O antepassado “Pretty Woman” (que transforma a heroína numa prostituta e o príncipe num homem de negócios que a contrata) apesar de tudo está mais próximo de ser esse tal “reverso”.

Um aparte: tal como podem descobrir nas internets, o “Pretty Woman” começou como um argumento chamado “$3000” (o número de dólares que o Edward [alguma ligação?] oferece à Vivian pelos seus serviços) que queria ser uma sátira, o tal reverso do conto de fadas; e aquela cena das roupas, aquela em que a nossa heroína se transforma de puta de rua rejeitada pela sociedade a sobreviver nas sarjetas de Los Angeles em senhora de sociedade glamourosa através do poder mágico de roupas estupidamente caras compradas nas boutiques de Rodeo Drive, provavelmente estava lá para ilustrar tudo o que está errado com este tipo de coisa. Estão a ver o fim do Pretty Woman? O herói aparece na rua da heroína de limusina e flores para a resgatar? No original isso também acontecia, só que em vez de limusina o herói aparecia no seu carro, e em vez de flores levava um envelope com dinheiro para lhe pagar os serviços, e em vez de ficarem juntos ele ia-se embora e deixava-a a chorar e a apanhar da sarjeta as notas que tinham caído do envelope.

E depois o argumento foi comprado pela Disney.

$3000

$3000. (Chris Potter)

Não é difícil perceber que um sub-género basicamente inaugurado na sua forma actual por uma coisa como o “Pretty Woman” está fadado a ser, digamos, problemático. Fácil observar que estes chick-flicks são profundamente anti-mulher: todo um ciclo cinemático em que mulheres com tudo para se sentirem realizadas são infelizes porque não têm a única coisa que pode dar significado às suas vidas – um homem, e talvez sapatos e roupas. Em alguns casos, a redução da heroína a alguém que só existe em função do seu macho é ainda mais explícita. Vide “Doce Novembro”, em que a heroína dedicou a sua vida a foder um milionário por mês para os curar do seu materialismo, superficialidade, etc.

Se o “Pretty Woman” representa uma espécie de regressão (precisamente o tipo de filme que o seu argumento originalmente criticava), o “50” é, inevitavelmente, mais extremo e mais regressivo. Não apenas uma espécie de depuração do género a uma forma mais crude e óbvia, o “50” parece o tipo exacto de estória que a Madame Bovary teria adorado; é quase um redux do “Madame Bovary” tal como reconcebido pela própria Emma para satisfação das suas fantasias.

Ou seja: possivelmente a melhor resposta ao “50” é um romance publicado há 159 anos. O livro do Flaubert desconstruia, como é da moda dizer, um género literário e as suas convenções, já velhas e gastas em meados do século XIX. Outra maneira de dizer que “50”, adaptado de uma série de livros que retratam como romântica uma relação de violência doméstica ¹ (o que faz sentido, dado que começou como uma ‘fanfic’ de “Twilight”; “50” é sub-Twilight, um derivado), é provavelmente o filme mainstream mais social e culturalmente atávico desde há alguns anos que não tenha saído das oficinas grotescas do Michael Bay. O que significa que os filmes-de-gaja românticos continuam a dar uma resposta para o sector feminino a filmes-de-gajo como “Transformers” ou o épico “Tartarugas Antropomórficas A Querer Foder Um Ser Humano”.

Não sei quais serão piores: todos os filmes de gaja que reforçam nas mulheres a ideia de que as suas vidas só tem significado em função de um homem, ou todos os filmes de gajo que reforçam nos homens a ideia de que as mulheres são recompensas, basicamente bibelots vivos com orifícios interessantes, que os gajos merecem porque são bons rapazes ou acabaram a corrida ou mataram muitos estrangeiros ou uma merda dessas. Mas considerando que os primeiros estão a vender a sua pílula envenenada como um doce às próprias vítimas, ganham pelo menos na repulsa.


¹ Mais dois links:  uma lista de 50 exemplos de abuso nos livros, em Inglês, trigger warning; uma resposta a alguns argumentos usados para defender os livros, também em Inglês.