Interstellar é uma viagem máaaaagica!


O Christopher Nolan (CN) é um realizador por quem tenho, se quisermos ser simpáticos, sentimentos conflituosos.

Por um lado não nutro por ele, de longe, um ódio tão acirrado como aquele que o Benicio Steel Sky lhe tem. A maior parte dos filmes que lhe conheço partem de conceitos interessantes, ainda que servidos por argumentos, digamos, não ideais. O homem tem uma conhecida predilecção por efeitos especiais práticos, o que não pode senão abonar a seu favor. Gostei, por exemplo, de muito do que vi no Inception, mesmo sendo este um filme muito prejudicado pela ideia parva de querer ser um filme de acção.

Por outro lado, reconheço que é terrivelmente sobrevalorizado. É um escritor de diálogos atrozes com graves limitações em termos de storytelling visual. Para ele, o conceito “Show, Don’t Tell” é tão alienígena como um ser extra-dimensional que habite um buraco negro. Essa competência, para CN, vai para personagens cuja única razão para existir é a de providenciar um conveniente veículo de exposição.

Ahem.

Ahem.

Além disso, as histórias que imagina são, sem excepção, deliberada e desnecessariamente convolutas; e apoiadas por guiões que são do mais estritamente “funcional” que há. Os filmes do Batman são exemplos particularmente ilustrativos de tudo o que vai mal na Nolândia™: são épicos-chunga dolorosamente enfadonhos e rebuscados, sofredores de uma noção inflacionada da sua própria “profundidade”, que está ao nível da poesia que um adolescente escreveria no caderno do liceu.

Por essas e outras razões, abordei a perspectiva de assistir ao Interstellar com um certo… cepticismo.

Mas, e quanto ao filme em si?

O mundo que Nolan tenta construir, admitamo-lo, é interessante. A Terra, presumivelmente por causa de alterações climáticas, está rapidamente a tornar-se inabitável. Devido a uma série de catástrofes naturais, a alimentação é cada vez mais escassa e os agricultores são um dos sectores mais importantes da sociedade. Mas se a premissa tem pormenores interessantes, Nolan infelizmente opta por apresentá-la com o mais Noliano™ dos dispositivos de exposição: põe uma série de velhotes do futuro, em formato “testemunhos reais”, a descrever como era a vida “nesses tempos”. Todos os personagens arranjam desculpas para caracterizarem, com todas as letras, o cenário que Nolan concebeu. Por exemplo: uma voz descarnada explica-nos que, neste mundo, as pessoas ganharam o hábito de virar os pratos para baixo de forma a protegê-los da omnipresente poeira. Ao mesmo tempo, Nolan está a mostrar-nos uma pessoa a virar um prato para baixo de forma a protegê-lo da poeira.

Por outras palavras, Nolan faz o pleno Nolan. Show AND Tell, bitches!

O objectivo do cineasta torna-se claro logo numa das primeiras cenas do filme: pretende-se conciliar o pensamento científico com o religioso. Ou melhor, se quisermos ser realmente honestos: afirmar que a ciência tem limites que só podem ser preenchidos com a fé (que aqui tem o mesmo sentido que amor, vá-se lá saber porquê). É uma discussão mais que batida para a qual, à partida, já conhecemos o resultado mais provável. Este tema é martelado na cabeça do espectador, vezes e vezes sem conta e de forma nada subtil.

Há, num ponto crucial da estória, uma discussão entre Cooper (Matthew McConaughey) e Brand (Anne Hathaway) sobre uma decisão importante que têm de tomar e que envolve o destino da Humanidade. Cooper argumenta com os dados objectivos que estão ao seu dispor; Brand argumenta com o coração, armada duma vaga intuição e movida pelo interesse egoísta de se reunir com o homem que ama. Adivinhe a qual dos dois o filme virá a dar razão.

Evidentemente, este não seria um filme de Nolan se não viesse também servido com doses generosas daquilo que é outra das suas imagens de marca: plot holes tão grandes que são capazes de criar uma dobra no contínuo espaço-temporal e abrir um atalho pela Quinta Dimensão. Mas sobre isso não me alongarei, já que não são assim tão determinantes para a experiência global e — convenhamos — porquê bater no ceguinho?

A experiência não estaria completa sem uma boa quantidade de diálogo expositivo: um momento particularmente irritante envolve um cientista a explicar ao personagem de McConaughey (um engenheiro e antigo piloto da NASA, por amor da santa!) como funciona um wormhole, com direito a desenhinhos num papel. A lição é de um didatismo que encaixaria melhor num episódio do “Era Uma Vez… No Espaço” do que em ficção-científica para adultos.

Ainda assim, Nolan tem tempo — afinal, o filme demora quase 3 horas — para nos brindar com algumas pérolas xaroposas:

“We used to look up to the sky and wonder at our place in the stars. Now we just look down, and worry about our place in the dirt.”

“Mankind was born on Earth, but was never meant to die here.”

“Love is the one thing we are capable of perceiving that transcends the dimensions of time and space.”

“I wish I knew how to quit you.”

“Love, TARS. Love!”

(Bónus: uma destas citações não pertence a este filme. Adivinhe qual.)

The power of loooooo-oooove!

The power of loooooo-oooove!

O twist

E no entanto… Foi com considerável surpresa (e algum horror) que dei por mim a apreciar boa parte do filme. A verdade é que, mesmo enquadradas por todos os negativos, as cenas de exploração planetária são realistas e envolventes; a ciência (o filme conta com consultoria de Kip Thorne, o físico teórico com o nome mais badass de todos os físicos teóricos) tem um efeito agradável sobre a imaginação; e as cenas de acção/aventura são genuinamente tensas. Há, em geral, um sentimento de entusiasmo e curiosidade que está praticamente ausente de toda a restante oeuvre do cineasta. E, no final, até as cenas de “testemunhos reais” faziam sentido.

Talvez seja o facto de haver algo de fundamentalmente belo e melancólico na história da aventura da Humanidade pelo Espaço, mas o Insterstellar consegue atingir alguns nervos emocionais certos.

Ou talvez seja uma manifestação do Amor Que Tudo Vence, Tudo Transcende™.