IRRA!


Antes de mais, esclarecer: gosto muito de animaizinhos e nenhum foi magoado na criação deste texto.

Mas haver quem esteja disposto, por um amor comum à bicharada, a fazer vistas grossas ao ódio a outros animais humanos, parece-me uma enfermidade própria deste século. Ou se calhar de outros também, que estas coisas amiúde são cíclicas.

A TVI fez uma reportagem sensacionalista, porventura tendenciosa? Well, duh. A TVI fez uma reportagem à la TVI. Mas já agora não me faz confusão nenhuma que se reporte sobre nazis de forma tendenciosa. Também eu (atenção que vou dizer uma coisa polémica) sou tendencioso contra nazis. É uma coisa muito minha.

E o que ninguém contesta, credivelmente pelo menos, é que há no IRA um padrão de perseguição discriminatória de certas etnias, de ameaças a vozes críticas, de contas lamacentas, de figuras muito pouco idóneas na cúpula… Que faz deles os sujeitos de uma investigação da PJ, tanto quanto sei uma organização que não é conhecida por ter uma sensibilidade politicamente correcta especialmente vincada.

Acerca do assunto, já ouvi por aí dizer que a história prejudicava a imagem do PAN, um dano colateral infeliz da malvada da reportagem. Não, o PAN prejudica-se por partilhar membros com grupos fascizóides. Se não queria ser prejudicado o PAN deveria ter-se demarcado inequivocamente do IRA (ou nunca se ter associado a eles, que estas coisas já se sabiam antes), o que não aconteceu. Isto quer dizer que o PAN é um partido de afinidades neonazis? Claro que não, mas quer dizer que o tipo de nebulosidade ideológica (“o PAN não se revê na categorização esquerda-centro-direita“) que adoptou torna-o bastante permeável à infiltração por este tipo de ideário, que não é de todo incompatível com a causa animal.

Também já me disseram que não me preocupasse, que muitas vezes era a própria polícia a convocar o IRA (não sei se com um holofote no céu estrelado) e que até havia PSPs à espera de intervir caso a situação se descontrolasse, como se isso fosse uma atenuante e não aquilo que é — um gravíssimo indício de complacência de agentes da lei perante o óbvio desrespeito da mesma. Eu cá gosto que a polícia cumpra a lei. É outra coisa muito minha.