Manneirismos


Todos nós, de vez em quando, gostamos de filmes maus. Há quem goste dos “Velocidade Furiosa”. Há muita gente que gosta dos “Transformers”, o que provavelmente é sinal de um eminente apocalipse sócio-cultural. Até há quem goste de filmes do Adam Sandler e companhia, embora essas pessoas já devam estar num qualquer registo internacional de crimes de ódio. Eu gostei do “Blackhat”.

De quem? Do “Blackhat”. Lembram-se? Por volta de Janeiro, uns anúncios a um filme em que o Thor fazia de hacker? Esse filme. Lembram-se de o ir ver ao cinema? Eu também não. O “Blackhat” pertence àquela categoria de filme a que o pessoal do Red Letter Media gosta de chamar “Fodei-vos é Janeiro”: em termos comerciais, Janeiro é o pior mês, por isso os estúdios de Hollywood aproveitam para despejar filmes em que não têm confiança. Quando o filme em questão conta com nomes de relevo (realizador: Michael Mann; actor principal: Thor), costuma ser sinal de que não é grande coisa.

Mas eu gostei. O filme foi-me conquistando. Em geral o filme tem um ar cansado, um ar de “bom, temos de fazer isto e temos”. Está cheio dos tiques e toques de assinatura de Michael Mann (perceberam? Perceberam o trocadilho? Enviem um e-mail se gostaram do trocadilho), que a princípio parecem que só estão lá porque tem de ser, para cumprir a quota. Por exemplo, a reutilização de uma expressão típica do Mann (neste caso, chamar às prisões “academias de gladiadores”; provavelmente a frase “tempo é sorte” está a descansar para voltar no próximo filme); quando chegámos à quase inevitável cena em que o herói encontra um momento/espaço de paz e segurança representado pela cor azul, parecia quase que estava a ver uma espécie de imitação.

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“The Keep”

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“The Keep” (outra vez)

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“Manhunter”

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“Heat”

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“Heat” (outra vez)

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“Ali”

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“Miami Vice”

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“Blackhat”

Só percebi que o filme me tinha conquistado com os seus maneirismos (haha) numa cena com barcos. Uns sujeitos estão a ir de barco para um navio; a câmara está também num barco, a seguir esses sujeitos. No ecrá está a própria sensação daquele barco, naquela água, na baía de Hong Kong, a passar à frente da proa de um navio: o peso e o movimento do barco, dos homens que estão no barco, a sua relação com o espaço que ocupa e os outros objectos nesse espaço; a sensação física, a realidade concreta destas coisas.

Depois há mais: um navio a passar por debaixo de uma ponte, e um saco a ser atirado para o navio; dois homens a ter uma conversa num helicóptero, usando rádio e auscultadores para falar através do barulho ensurdecedor; um avião a partir de Hong Kong; um homem a mirar cuidadosamente no meio de um tiroteio e a disparar (sem piscar os olhos, está habituado a disparar armas de fogo); um jipe a ser empurrado do alto de um parque de estacionamento. Não por esta ordem.

É claro que grande parte disto se deve ao facto de tudo aquilo que eu descrevi ser basicamente real, e não efeitos especiais. Mas é mais do que isso. É a maneira como o Mann filma. O triunfo da cinematografia digital sobre a película resultou, em geral, em imagens menos claras, uma espécie de poalha digital (comparar um filme moderno com um filme dos, sei lá, anos oitenta é como comparar uma paisagem antes e depois de uma boa chuvada) e sensação de irrealidade nos filmes. Mas não nos filmes do Michael Mann. Ele acolheu as câmaras digitais de braços abertos com o “Collateral” porque lhe permitiam filmar o que sempre quis da maneira que ele queria: iluminação real, liberdade para mudar a câmara de posição sem ter que mudar a iluminação, a possibilidade de capturar céus nocturnos urbanos. Em 1995, no “Heat”, para nos mostrar o céu nocturno de Los Angeles, teve de usar efeitos especiais.

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“Heat”

Mas no “Collateral” e no “Miami Vice”, por exemplo, já nos pode mostrar o céu real das suas cidades.

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“Collateral”

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“Miami Vice”

Nas mãos do Michael Mann, a cinematografia digital transmite texturas, pesos e volume, a dinâmica de objectos em movimento (os filmes do Michael Mann estão cheios de corpos em movimento: carros, helicópteros, barcos, aviões, pessoas, muitas vezes no meio de multidões, frequentemente numa discoteca) tal como eles estão no mundo. A câmara tem mais facilidade em vaguear, focar-se nisto e naquilo, no que é provavelmente a imitação melhor possível em cinema do olhar humano.

Esta sensação de autenticidade visual liga-se à preocupação do realizador com realismo – ou a ilusão de realismo – na representação de actividades e profissões. O Mann começou a carreira dele a estudar prisões, ladrões e polícias, e a usar polícias e ladrões como actores para fazerem de ladrões e polícias. Não percebo corno de informática, mas tenho impressão que o grande acto de ‘hacking’ do nosso herói neste filme é provavelmente a representação mais realista de ‘hacking’ alguma vez vista num filme de Hollywood.

A preocupação com autenticidade é engraçada se tivermos em conta que é usada em serviço de narrativas de género familiares que o Mann repete em muitos dos seus filmes: há o herói super-profissional e macho, o diálogo sucinto e directo, polícias e ladrões, laivos da preocupação recorrente do Mann com a forma como a vida institucionalizada (em particular as prisões) moldam as pessoas, o conflito entre relações românticas e preocupações profissionais, heróis e vilões que vivem pela experiência de fazer o que fazem bem tão bem quanto pode ser feito. Mas nos filmes dele, do Mann, estas coisas parecem pessoais e não genéricas, provavelmente graças à combinação de pesquisa, preparação e ligação pessoal do tipo ao mundo que retrata.

Portanto, o “Blackhat” não é grande coisa, mas eu gostei dele por causa dos barcos.

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