Mata-bicho e bichx


É cansativo. Agora foi o Bruno Nogueira a zangar-se no “Mata-Bicho” com o que a Fernanda Câncio escreveu no Diário de Notícias sobre o que o Miguel Esteves Cardoso disse no “Fugiram de Casa de Seus Pais”. Estão a acompanhar?

A substância da resposta, e a virulência da forma, revela que o BN não está, ao contrário do MEC (conservador, monárquico, com idade para ser seu pai), disposto a aprender nada e tem raiva de quem ouse pretender ensinar-lhe qualquer coisita.

Nessa rábula do “M-B”, o Bruno Nogueira passa metade do tempo a explicar como foi mal interpretado e a outra metade a demonstrar como a interpretação original estava basicamente certa. Até podemos admitir que o texto da Fernanda Câncio vai demasiado longe nas suposições quanto ao diálogo interno do BN, mas na sua defesa ele demonstra que está certo quanto à essência. Porque ele até faz questão de esclarecer: ele considera que o politicamente correcto, na sua forma actual, é “um retrocesso e não uma questão de boa educação” e que “… a boa educação não pressupõe […] assinalar a má educação [dos outros]” (Não?). Curiosamente, os exemplos que ele usa no “FdCdSP” (cartão de cidadão e cidadã, linguagem neutra), logo rebatidos pelo MEC, não são os mesmos que usa na resposta a FC (censura de livros, retirada de obras em exposição), substancialmente mais sérios. Mas não menos equivocados, já agora.

Outra das coisas que feriu o BN, aparentemente, foi ter sido acusado de usar um tom “derrisório”, mas nos próprios trechos que escolheu é possível ouvi-lo dizer que há quem fale por “procura de uma ocupação” (logo no início do “M-B”, confirma: a Fernanda Câncio “deseja mais ser falada do que ver o assunto falado”). Nada derrisório.

Ainda assim, nada que se compare com o estúpido ataque ad hominem (ad femen?) com que decidiu encerrar o episódio. A FC é um alvo privilegiado dos “politicamente incorrectos”, talvez por ser um dos mais vocais, insistentes e intransigentes a falar sobre este assunto. O facto adicional de ser mulher, tenho a certeza absoluta, garante-lhe um tratamento especialmente desdenhoso.

Nada disto é particularmente novo, há uma longa e nobre relação do humor com o politicamente incorrecto. Foi sempre parte integrante do humor, podemos dizer até função, expor a hipocrisia do pensamento dominante, religioso, político, moral… Nos anos 60, o Lenny Bruce teve problemas a sério com as leis de obscenidade; nos 70s, o George Carlin escandalizou meio mundo com a sua virtuosa listagem das sete palavras proibidas em TV; nos 90s, o Bill Hicks ridicularizou violentamente o fanatismo religioso, o nacionalismo, o jingoismo, etc. Seguiram-lhe uns quantos sucedâneos de segunda categoria (no caso particular do Denis Leary, a homenagem levava pendor Toni Carreiriano), que foram progressivamente substituindo a análise crítica pelo shock value. Hoje em dia, o politicamente incorrecto é uma muleta para humoristas medíocres que elegeram como plataformas o anti-feminismo e uma resistência ao progresso em geral, fazendo eco, não o contrário, do pensamento dominante (estou a olhar para ti, Sinel).