Mau Tempo


Quando começo a escrever isto, ainda dura o combate entre António “Touro Rugidor” Costa e Aquele Sujeito da TVI Cujo Nome Eu Não Sei (Astcnens daqui em diante), o mais recente — e, espero eu, o ponto mais baixo, embora duvide — episódio da campanha pós-eleitoral conduzida por iniciativa própria pela nossa comunidade rádio-televisiva. O António Costa, deus o tenha, continua a lutar estas coisas por regras de boxe, e vai continuar a lutar até ter o destino típico dos touros teimosos em arena, enquanto o Astcnens usa uma abordagem mais canina.

A cobertura rádio-televisiva das eleições e deste pequeno verão de São Martinho político pós-eleitoral — até voltar o Avô Inverno para repor a marcha da época de morte e definhamento — dava um estudo. Provavelmente era um bom assunto para a minha tese, mas ia ficar enviesada pelas minhas convicções a priori sobre o assunto. E por muito correctas que elas possam ser (vou partir do pressuposto que são, como se faz), isso era má forma.

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O Pai

Porra, por onde começar? Pela maneira como entrevistadores e moderadores oscilam entre o modo fluffer quando entrevistam membros da coligação, os seus satélites e, desde as eleições, pessoal “de esquerda” estilo Assis; e o modo snuff quando entrevistam a esquerdalha? Pelas edições dos telejornais que transformaram derrotas em debates para o Pedro Paulo (uma espécie de Pier Paolo reaçó-neo-lib; o Salò dele somos nós) em, na pior das hipóteses, empates? (e com o Pedro Paulo sempre com a última palavra). Pela disparidade de tempo de antena dados aos diferentes lados (vide as conferências de imprensa após a última reunião PS-PSD-CDS, e quando é que as televisões decidiram cortar as emissões), recentemente adornada com a desigualdade de atenção dada ao PS anti-esquerda por comparação ao pró-esquerda? Ou então pelas palavras que são escolhidas para descrever as afirmações de uns e outros: palavras como “sublinhou”, “lembrou”, “relembrou”, “realçou”, “alertou” — palavras que sugerem que as afirmações em causa não são opiniões mas sim factos — para uns, e palavras como “afirmou” e “acusou” — palavras que sugerem subjectividade — para outros (adivinhem quem são os “uns” e quem são os “outros”).

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O Filho

Talvez pelo facto de que as televisões estão cheias de comentadores do espectro do governo, apresentados com a mesma aura de oráculos imparciais com que os jornalistas se vestem, com as poucas vozes discordantes empurradas para os recônditos dos canais por cabo? (Que tal o facto de que o mais próximo de vozes desalinhadas com tempo de antena serem pessoas como a Constança Cunha e Sá e o Miguel Sousa Tavares? O Miguel. Sousa. Tavares. Ah, e o Pacheco Pereira, esse perigoso esquerdista.) Neste momento, o combate já acabou e entrou em fase spin, cortesia de um painel de comentadores da TVI 24 composto de não-António Costa, Constança Cunha e Sá (lá está) e aquele sujeito do Governo Sombra (vocês sabem quem é. Ó pá, eu não queria ir por aí, mas é o que troca os r’s pelos g’s. Não digo isto para gozar, ele já oferece material que chegue no conteúdo sem precisarmos de olhar para o meio. E na cara, na cara também) para fazer os outros parecer mais equilibrados. Uma bela amostra da pluralidade de vozes na nossa comunicação social.

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O Espírito Santo

É uma espécie de magia: a televisão, com um empurrão da rádio e um embalo do resto dos media, criou uma realidade em que só os partidos de que eles gostam é que contam (o nome do feitiço é Arco da Governabilidade), em que é legítimo o PSD e o CDS formarem coligações pós-eleitorais (como fizerem no ainda-actual-governo), e em que é legítimo o PÀF (apropriadamente, a onomatopeia de uma bofetada na cara) mudar as regras de distribuição de lugares na assembleia após as eleições para dar mais lugares ao PSD (para poderem ter mais deputados que o PS; pelas regras com que fomos a votos, o PS foi o partido individualmente mais votado), mas é ilegítimo uma maioria parlamentar querer formar governo. Uma realidade em que o PC e o BE são partidos que não contam porque não querem fazer parte de soluções governativas, e se quiserem, não são de fiar porque querem fazer parte de soluções governativas (é o chamado pescadinha-de-rabo-na-boca, como diria um outro Ministro do Sexy). Uma colonização da nossa mente para nos convencer de que só existe uma opção, e que essa opção é Direita Hoje, Direita Amanhã, Direita Sempre.

Entretanto, estão com medo. Estão nervosos. Via-se na cara do Sr. Astcnens hoje. Pensaram que estavam safos, mas agora parece que pode haver governo de esquerda. Em desespero, olharam para os seus santos — os Parceiros Internacionais — mas estes estão em paz com o PS. Olharam para o seu deus, Os Mercados (nome alternativo de Azathoth, o deus cego e imbecílico), mas ele está calmo. Para apaziguar o estômago, viraram-se para o Assis, invulgarmente abespinhado quando foi à RTP receber um banho de língua em forma de entrevista por parte d’Aquele Sujeito da RTP Cujo Nome Eu Não Sei (Asdrtpcnens). Se há coisa que irrita o normalmente soporífero Assis é a possibilidade de um governo à esquerda. O Assis. O Assis sempre foi, é, e sempre será, um nhonhas. Não é surpresa que o entrevistador estivesse no modo fluffer. O Assis era, claro, o gimp. O resultado foi altamente erótico para a coligação.

Os nervos são escusados. Isto é bom, mas acaba. Eventualmente, o Cavaco vai-se erguer e fazer exactamente o que toda a gente espera que ele faça. Mas até lá, podemos sonhar.

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Ámem