O Capitão Falcão devolveu-me a virilidade


É tristemente conspícua a escassez de meditações sobre o passado político recente de Portugal na cultura popular. Não é saudável. Recentemente tivemos o “Conta-me como foi” da RTP, que era um olhar mais nostálgico do que crítico sobre os anos da ditadura.

Neste contexto, surge “Capitão Falcão”, que se descreve a si próprio como “uma sátira sobre a paranóia anti-comunista nos dias da ditadura fascista em Portugal”.

Mas o filme funciona melhor não como uma crítica explícita ao Salazarismo (nos momentos em que o faz, acusa uma certa condescendência), mas como uma sátira do nacional-fetichismo. “Capitão Falcão” pode ser visto como uma expiação psicossexual do nacionalismo luso.

Há algo de ligeiramente desconfortável logo nos primeiros momentos: um slideshow oferece-nos um resumo empolado dos feitos e conquistas desta nossa ocidental praia lusitana. O tom é de gozo, obviamente, mas é perigosamente próximo de algo que está escondido no subconsciente nacional e que volta e meia aparece para mostrar a sua fronha medonha.

Este país sofre de uma estranha mistura de baixa auto-estima com uma teimosa resistência à crítica. Não sou nenhum psicanalista, mas acho que há qualquer coisa de patológico nisto. Parece que Portugal só a consegue levantar (a bandeira, claro) quando o maltratam, do género “fui um país muito mal comportado, vou ter que ser castigado”. O que não surpreende, visto ser um país construído sobre mommy issues — papel preenchido, à vez, por D. Teresa, a Nossa Senhora de Fátima, Angela Merkel…

Numa cena em particular, D. Afonso Henriques aparece para galvanizar o Capitão. O discurso que se segue é uma empolgada incitação patriótica, em que o Primeiro Rei de Portugal se sai, como que por lapso freudiano, com a seguinte tirada: “Olha para mim agora, mãe”. Como alguém criado no raio de influência de uma cidade que se auto-proclama, com muito orgulho e algazarra, Berço da Nação, esta cena deu-me particular gozo.

Capitão Falcão

A dinâmica familiar do Capitão dá origem a algumas das cenas mais divertidas do filme, e funciona a outros níveis. A excessiva formalidade, a frieza conjugal e a peculiar rispidez paternal são uma boa paródia ao tipo de psicologia que anda de mãos dadas com o nacionalismo, lusitano or otherwise. Em tempos como os que vivemos, com nacionalismos a deflagrar um pouco por toda a parte, o “Capitão Falcão” poderá providenciar um bem-vindo antídoto.

Formalmente, “Capitão Falcão” tem a marca de qualidade a que o realizador João Leitão nos tem habituado. As referências (Green Hornet, Flash Gordon, Batman…) estão todas lá, mas não de forma tão insistente que nos tire da estória. Em termos de interpretações, os actores que desempenham os papéis centrais (particularmente Gonçalo Waddington, José Pinto e Miguel Guilherme) são irrepreensíveis; e ainda temos direito a um cameo de Nuno Lopes, praticamente incógnito, na tal cena familiar.

Não que “Capitão Falcão” esteja livre de problemas, mas o efeito global é genuinamente divertido e frequentemente engraçado, com cenas de acção e pancadaria (coreografadas por David Chan Cordeiro, o Puto Perdiz) que surpreendem pela qualidade da execução.

Seria bom que tivesse algum sucesso de box office, porque representa uma forma diferente de fazer filmes em Portugal. É cinema de entretenimento com coração e cabeça, ao contrário das explorações cínicas e/ou dolorosamente medíocres que passam por isso, neste país.

Matem-me JÁ.

Matem-me JÁ.

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