O futuro de um Universo (e algum do seu passado oculto) — Parte 5


É com muito prazer (e sadismo) que vos dou as boas vindas à penúltima parte desta série de artigos que, felizmente para toda a gente envolvida, tem o seu fim à vista! Vamos então por mãos à obra e despachar isto, até porque tenho uma história fenomenalmente imbecil para contar.

Captain Marvel — 2 de Novembro de 2015

Costuma-se dizer que duas cabeças pensam melhor do que uma. Esta história, porém, é possivelmente uma prova de que quatro cabeças pensam muito pior do que uma (ou meia, lá por isso). Mas vamos evitar pôr a carroça em frente dos bois: há uma catrafada de personagens que passaram pelo nome Captain Marvel. Neste caso, estamos a falar da mais recente dona do nome, Carol Danvers.

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Longe de ser uma personagem nova, a Major Danvers (porque não Major Marvel, então?) estreou-se no Universo Marvel em 1968. Nove anos depois, numa confusão que envolveu ser raptada por alienígenas, uma maquineta de outro mundo e a explosão da mesma , ganhou, como já seria de esperar, super-poderes. De alguma maneira, a explosão provocou a mistura da estrutura genética dela com a do seu salvador, o Capitão Marvel original¹. Com o nome Ms. Marvel, a longa carreira de Carol Danvers eclipsou por completo a do herói em que foi baseada até que, em 2012, ficou com o nome Captain Marvel só para ela.

É perfeitamente aceitável que tenham aparecido alguns momentos idiotas com a personagem durante os seus quase 40 anos de actividade; afinal de contas, até no melhor pano cai a nódoa. Mas este é um caso muito particular, já que a Carol Danvers é um ponto fulcral daquele que, sem dúvida, é um dos momentos mais infames (e imbecis. Convém sublinhar de novo a imbecilidade disto.) da história dos Vingadores, quiçá até da banda desenhada!

 

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Sim, mais estúpido do que isto.

 A infame história, escrita em comité por Jim Shooter, David Michelinie, Bob Layton e George Perez, tinha o intuito de substituir à pressa uma ideia anterior que precisava de ser alterada devido a semelhanças com uma outra história publicada pouco antes. Em retrospectiva, todos os envolvidos deviam ter preferido lidar com acusações de reutilizarem ideias do que com serem conhecidos como os responsáveis por esta trampa em formato de banda desenhada.

Tudo começa quando Carol Danvers aparece misteriosamente e repentinamente GRÁVIDA DE TRÊS MESES! Se este conceito não vos preenche o cérebro de terror, há algo de fundamentalmente errado a vossa mente. A nossa senhora Danvers lida com a situação de uma maneira perfeitamente apropriada (uma mistura de confusão e pânico); o resto dos Vingadores, porém, parece ter sofrido de algum tipo de demência colectiva! Por alguma razão estranha, aquelas pessoas, que normalmente parecem ser seres humanos bastante razoáveis, mostram-se felizes e não particularmente impressionados com esta novidade. Note-se que, pela altura em que eles descobrem a gravidez, a coisa já avançou para os sete meses… No espaço de HORAS. E falando em horas, aqui está o recém-nascido bebé Danvers umas horas depois do parto:

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Qualquer sentimento de terror adicional é completamente independente daquela perinha, e sim proveniente da situação horrível que descrevi.

Mas ainda não chegámos ao cume da estupidez que é esta história. Para isso, é preciso primeiro revelar de que o bebé (Marcus, já agora) é o seu próprio pai! Como, perguntam vós? Bom, o nosso simpático Marcus era filho de Immortus, um vilão dos Vingadores, e estava preso no Limbo. Para sair de lá, raptou a Ms. Marvel com o intuito de escapar através de um plano simples: conquistar o amor dela e “engravidá-la” com a sua essência! Marcus diz que poderia ter usado as máquinas do pai para a forçar a apaixonar-se por ele, mas nunca o fez… Usou-as só para lhe dar um “empurrãozinho” nessa direcção. Este tipo de raciocínio só leva a um sítio!

Portanto, vamos resumir: temos um violador, filho de si mesmo, que manipulou mentalmente uma mulher para que ela servisse como a sua incubadora pessoal. Dita mulher está, claramente, psicologicamente fragilizada com tudo o que aconteceu. É sem dúvida aqui que os heróis da história entram em acção e param esta criatura horrenda, certo? Não, nem perto! Os Vingadores apoiam em pleno a relação claramente saudável entre Carol Danvers e o seu pseudo-filho e enviam o casal feliz para o Limbo para viverem felizes para sempre! Fim.

No ano seguinte, Chris Claremont teve a feliz ideia de apontar o quão imbecis os Vingadores foram, numa história em que Carol Danvers volta do Limbo e lhes dá essa informação de caras.

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Sim, Thor, fala com a mulher que enviaste para o Limbo com um delinquente sexual sobre as “lágrimas femininas” dela.


¹Convém, pelo sim, pelo não, relembrar de que explosões, radiação cósmica, exposição a resíduos tóxicos, etc., não dão, nem nunca deram super-poderes a ninguém.