Pin-ups para nerds


Já viram o trailer do último filme da Wonder Woman? Eu já. Não que faça planos de ir vê-lo. Até agora tenho conseguido manter-me ao largo das fantasias depressivo-fascistas do Zack Snyder & ca. e pretendo manter-me assim. Quero apenas aproveitar a ocasião para vos oferecer as minhas meditações sobre aquilo que é, em produção hollywoodesca, a mulher de acção. O tipo de serviço público a que já vos habituamos.

Um dos primeiros filmes a fazer uso desta trope para grande efeito foi o “Alien” (conhecido por estes lados como “O Oitavo Passageiro”. Lembram-se de quando ainda traduzíamos títulos e era altamente?), que converteu uma personagem feminina, a Ellen Ripley, em improvável heroína, graças ao seu engenho e determinação.

A transformação definitiva em mulher de armas deu-se na sequela (“Aliens”, 1986), que usa a Ripley como heroína de acção mais convencional num contexto militarista. Mas mesmo aí havia uma subversão engraçada: os militares machões do início rapidamente se transformam em bebés chorões mal encontram os primeiros alienígenas. E o confronto final tinha um subtexto feminino bastante icónico. Opunha dois instintos maternais distintos: a Ripley lutava para proteger Newt e a Rainha-Xenomorfo para proteger, bem, as suas ninhadas de montros violadores de caras humanas.

Como recusar seja o que for a uma fofura destas?

Como recusar seja o que for a uma fofura destas?

Apropriadamente, a Sigourney Weaver descreveu a sua personagem como sendo uma autêntica “Rambolina” — coisa mais ou menos inédita à altura. Ora, o que na altura era libertador, tornou-se agora o status quo.

Hoje em dia, as mulheres fortes no cinema são de um único tipo: a Amazona Boazona. A única expressão de poder que lhes é permitida é competirem com a sua contraparte masculina em termos de contagem de mortos, em cenas de acção impossivelmente coreografadas e filmadas em bullet time — mantendo sempre o penteado impecavelmente cuidado. Pouco importa que tenham a personalidade de um prato de Nestum.

E não é só o penteado destas heroínas que tem que estar no sítio. Também é comum que sigam um dress code que já se tornou mais ou menos infame: o chamado chainmail bikini (qualquer coisa do género “bikini armadurado”). Vocês sabem do que estou a falar. Estão a ver? Não basta que estas mulheres distribuam pancada a preceito, também têm que ser sexy enquanto o fazem. Progresso!

Ouçam, eu gosto de encher as vistas com uma gaja jeitosa tanto quanto o outro. Mas também apreciava alguma variedade. Sobretudo, já se dispensava a hipocrisia de associar isto a uma espécie de feminismo pervertido.