Príncipe procura moça casadoira


Ah, os anos oitenta. Tempos mais simples. Uma época em que o príncipe de Zamunda podia passear incógnito pelas ruas de Nova Iorque sem ter de se preocupar com fotos disso no Instagram.

Para aqueles cuja memória já não estica até aos idos de 1988: “Coming to America” (para nós “Um Príncipe em Nova Iorque”) conta a história de Akeem, o príncipe do título, que decide viajar para a América do título, em busca de uma noiva para substituir aquela que o pai escolheu para si.

Coming to America

Na América, por aquele tipo de coincidência só possível nestas coisas, a filha do proprietário do restaurante para onde Akeem vai trabalhar tem um problema semelhante ao do herói, presa a um namoro com o herdeiro de uma marca de laca para o cabelo (são os anos 80, afinal).

É quase escusado, mas digo-o à mesma: Akeem e Lisa (a garota em questão), depois da série habitual de curvas e contracurvas, lá acabam por apaixonar-se e, contrariando as respectivas famílias, casam e vivem felizes (espera-se) para sempre.

A mensagem é simples: os casamentos por conveniência são maus e o amor é lindo. Simples, certo? Mais ou menos.

As duas situações são expressões bastante explícitas do casamento como troca de propriedade e aliança monetária. Nada disto é especialmente original numa comédia romântica de Hollywood, mas ao contrastar estas duas versões, o filme inadvertidamente faz um bom trabalho a expor o facto de que não há uma diferença conceptual muito grande entre a instituição do casamento “conservador”, “arcaico” dos países em vias de desenvolvimento e a sua versão “progressista”, “moderna” e ocidental.

Não que o filme pareça consciente disso, claro. É estranha, por exemplo, a leveza com que trata a forma, digamos problemática, como o pai está, basicamente, a prostituir a filha ao homem que tiver a carteira mais gorda. A certa altura, em jeito de justificação, diz que “só quer o melhor para ela”. Que o “melhor para ela” venha com um empurrão automático ao estatuto social, é bónus.

Coming to America

No final, a Lisa casa-se com o homem por quem se apaixonou, é verdade, e é toda uma coisa aparentemente inócua. Mas acho que é seguro dizer-se que abandonou carreira e estudos no processo (que no início do filme queria por tudo manter). Não que vá voltar a precisar dessas coisas, já tem o homem que queria. E uma casa grande como o caraças.

Talvez estejamos a ser injustos com “Um Príncipe em Nova Iorque”, ao lê-lo como algo mais que um simples conto de fadas. Ou talvez isso nos diga outra coisa: que as mensagens dos contos de fadas são tudo menos uma coisa simples.

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