“Star Wars: The Force Awakens”, agora em glorioso 2D


Agora que a poeira assentou um bocado, já podemos falar do “Star Wars: The Force Awakens” com alguma serenidade? Se ainda não viu o filme, aconselho-o vivamente a fechar esta página ou, melhor ainda, a explorar as outras (igualmente maravilhosas) secções dela.

As condições, diga-se de passagem, não eram as ideais: tripa ainda às voltas por causa dos comes e bebes natalícios, a sentir os últimos arrepios de uma febre gripal, irritado comigo próprio por ter comprado ao engano bilhete para uma sessão em IMAX (fixe) e 3D (foleiro)… Ainda assim, dia 26 eu e um grupo de expedicionários enfrentámos as filas para estacionar de um shopping e fomos ver o último “Star Wars”.

Embora os “Star Wars” originais (na altura ainda nos dávamos ao trabalho de traduzir para “Guerra das Estrelas”, mas presumo que hoje em dia esse título já deva estar tomado por um reality show de celebridades) tenham desempenhado um papel central na formação do meu geek-mirim, hoje em dia tenho muito pouca pachorra para esta onda de filmes de nostalgiasploitation (todos os direitos reservados) que anda a dominar a tela.

"Sinto uma grande perturbação na Força, como os gritinhos histéricos de milhões de fanboys."

“Sinto uma grande perturbação na Força, como os gritinhos histéricos de milhões de fanboys.”

Aqui há atrasado falei da minha desconfiança face ao alarido que estava a ser feito em torno dos efeitos especiais práticos e da evidente exploração da nostalgia sobre a qual estas sequelas prometiam assentar. As minhas previsões cumpriram-se, é claro, o que diz menos sobre os meus poderes de futurologia do que sobre a previsibilidade do paradigma actual hollywoodesco.

Efectivamente, a maior crítica que se pode dirigir a “SW:TFA” é a excessiva reverência com que trata o material original. Ponto por ponto, a estrutura narrativa deste filme espelha a do primeiro “Star Wars”. As referências, em graus vários de subtileza, sucedem-se em catadupa. É fan service descarado, mas o que talvez o distinga de outros filmes nesta onda (veja-se o “Jurassic World”, feito com uma insuportável carga de cinismo armado em homenagem) é que é dirigido por um verdadeiro fã.

Ainda assim, seria preferível algum arrojo adicional em distinguir esta trilogia dos originais. Talvez o venham a fazer nos filmes seguintes, agora que já despacharam o Han Solo e a pseudo-Estrela da Morte (até ver, a terceira da série). Não vejo grande razão para que não se possa fazer um filme “Star Wars” sem recorrer a citações directas da trilogia original, ao mesmo tempo preservando as qualidades que fizeram dela o fenómeno que é hoje. Bastaria, por exemplo, que se fosse buscar inspiração às mesmas fontes que inspiraram os originais: filmes de samurais, westerns, romances de cavalaria, serials de ficção científica…

O que redime o filme é a empatia imediata que nos faz sentir pelas personagens, sem dúvida mérito do escritor (o Lawrence Kasdan) e dos actores. Gostei especialmente do tratamento que fizeram do Kylo Ren (Adam Driver), precisamente o elemento em relação ao qual, sem conhecer a história, eu estava mais relutante. Embora tenha todos os elementos de um clone genérico do Darth Vader (máscara negra, voz distorcida, relação parental com um dos heróis), a forma como lidaram com ele trouxe alguma frescura e mesmo algum humor à personagem, prova de que é possível ter um personagem em conflito consigo próprio sem ser irritante (estou a olhar para ti, Anakin). O público parece ter respondido de forma correspondente, até porque surgiu recentemente uma conta no twitter chamada Emo Kylo Ren.

Já agora, vamos concordar, para fins desta análise, que as prequelas nunca existiram? Vamos, sim, muito obrigado.

De qualquer modo, parece que foi o que a Disney fez. O J.J. não o admite, mas as prequelas foram tacitamente riscadas do mapa. Compreende-se, o búfalo sagrado George Lucas ainda cá anda e impõe-se algum respeito, mas tenho poucas dúvidas de que a omissão é intencional. Não me espantaria que, mais tarde ou mais cedo, o reboot das prequelas seja anunciado.

Mas até lá, nem sombra de midichlorians, de intriga burocrática, de lutas de espadas à Cirque du Soleil, de academias de Jedi, de putos órfãos irritantes, de Jar Jar Binkses… Diga-se o que se disser das prequelas, ao menos serviram como um bom mapa para as coisas a evitar num filme de “Star Wars”.

Tem alguma piada vir o Lucas lamentar-se agora do peso que as franchises assumiram em Hollywood, quando ele praticamente inaugurou a moda das prequelas, como parte de uma longa carreira dedicada a dissecar a maior franchise de todas! É evidente um certo ressabiamento por ter perdido o controlo criativo da série, que o inspirou à infeliz comparação entre a Disney e a escravatura. Mas mesmo ele faz a crítica, legítima a meu ver, que estas sequelas deveriam apoiar-se mais em material original do que na evocação retro. De acordo, desde que não fosse o Lucas a fazê-lo.

E o que diz a crítica sobre o “SW:TFA”?

Uma crítica no Ípsilon, particularmente severa, queixava-se da “… sisudez deprimente (o humor, varrido do grande espectáculo hollywoodiano, foi a maior vítima da “seriedade” do filme de super-heróis)…” Embora eu compreenda o sentimento geral do texto, o crítico deve ter ido ver um filme diferente do que eu, porque o “ST:TFA” está repleto de humor, que quase sempre acerta no tom certo. E trai uma certa má fé, ou pelo menos ignorância, em relação aos filmes de super-heróis. Até um perfeito leigo na matéria como eu sabe que, se essa crítica pode muito bem ser feita em relação aos filmes da DC (e até eu já o fiz aqui), o mesmo não se pode dizer dos da Marvel.

Mas, em geral, o tom da crítica é de consensual excitação, talvez exagerada. Por exemplo, o Kevin Smith (realizador de um par de filmes interessantes e de outras tantas inanidades) mal pôde conter um orgasmo-nerd, num vídeo em que, mais do que analisar criticamente o filme, se limita a listar ofegante as coisas que o entusiasmaram nele.

E o que penso eu do filme? É um bom filme de entretenimento de massas feito para vender merchandising a miúdos, que é precisamente o que os originais, ao contrário do que dizem alguns fãs revisionistas, sempre foram. E, dentro destes parâmetros, é mesmo um filme bom. Ou seja, cumpre tudo o que promete: é divertido, empolgante, tem drama humano suficiente para sustentar os elaborados set pieces que o enquadram.

E, no final, a dor de cabeça da gripe até ajudou a disfarçar a do 3D. Foi um milagre de Natal.

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