Tu dizes “nuorte”, eu digo “norte”


O termo “blackface” descreve uma tradição de palco, original dos EUA no séc. XIX, em que performers, geralmente caucasianos, pintavam o rosto de negro e envergavam perucas hirsutas para representar caricaturas pouco lisonjeiras de negros afro-americanos. Naturalmente, com o avançar do tempo as perspectivas foram mudando, e o blackface foi justamente passado a ser visto como uma prática inaceitável e racista, sobretudo num país em que as relações raciais são tão melindrosas como nos EUA.

 Minstrel Posterby Billy Van Ware

Ressalve-se as óbvias diferenças de proporções (muitas, tipo muitas) e podemos encontrar, no Portugal do séc. XXI, um fenómeno com algumas semelhanças. Trata-se de um estereótipo subtilmente depreciativo e condescendente de pessoas naturais de uma metade do país, muitas vezes interpretadas por actores naturais da outra metade. Eu chamo-lhe “northface”.

Qualquer pessoa com um televisor de sinal aberto deverá estar mais ou menos familiarizada com este tipo: pronunciadíssimo sotaque do Porto (porque no norte só há um sotaque, claro¹), vida intelectual simples evidenciada pela forma azeiteira com que se veste, tudo emoldurado pelos atributos redentores — um coração no sítio certo e personalidade “de pêlo na venta” ou “de gancho”.

Não é incomum vermos, como acontecia em “Sol de Inverno”, uma dinâmica entre um personagem deste tipo que dá conselhos do coração a outro personagem mais sofisticado, mas emocionalmente limitado. Como fazia outro personagem-tipo da ficção norte-americana: o “magical negro“, sempre a postos para oferecer sabedoria ao homem branco principal.

Mesmo agora, basta sintonizar a SIC a qualquer dia da semana em horário nobre, e encontramos a Rita Blanco (natural de Algés, felizmente comedida no sotaque fingido) a interpretar Maria, uma rapariga simples do norte com um coração de ouro. A novela chama-se… “Coração d’Ouro”, não estou a inventar. Na página da SIC, Maria é descrita da seguinte forma: “Deixou de estudar cedo. Não teve uma vida fácil, mas aprendeu a sobreviver acreditando sempre que o dia de amanhã seria melhor que o de hoje.”

Ricos em sonhos, pobres em oiros

Mas não há maior prevaricadora neste assunto do que a Luciana Abreu, uma mulher nortenha de pleno direito. As personagens que ela interpreta na TV correspondem invariavelmente a este estereótipo, desde a doméstica-com-coração-d’oiro-Floribela. Não pensem que acho que ela faz seja o que for de censurável: ela limita-se a desempenhar os papéis que lhe são oferecidos e que lhe permitiram criar uma carreira que não é das mais desagradáveis que se pode ter. Nem se pode sequer dizer que ela seja typecast — ela é praticamente o tipo. E nisto reside um dos maiores perigos da northface: que as próprias pessoas visadas interiorizem o estereótipo e o mimetizem. Os EUA segregacionistas tinham uma expressão para esse tipo: “uncle tom“. Podemos facilmente atribuir este fenómeno à mediocridade dos escritores e produtores (e tenho quase a certeza que é disso que se trata), mas nem por isso é menos tóxico.

O bairrismo nortenho (um caso excepcional em que o estereótipo coincide com a realidade²) não acontece num vácuo. Parece-me a mim que tem alguma coisa a ver com as evidentes assimetrias de riqueza e o centralismo excessivo dos órgãos de poder e de comunicação social. Condições como estas ajudam a explicar uma certa sensibilidade das pessoas nortenhas face a este tipo de estereótipo paternalista.


¹ O Ricardo Araújo Pereira gravou, para a “Mixórdia de Temáticas”, um sketch chamado “O Jedi de Fafe“. Nele, o RAP comete dois erros crassos. O primeiro é não usar uma das outras freguesias para o efeito: Serafão, Queimadela, Arões, Agrela, Fornelos, Revelhe, Cepães,… Digam lá se “o Jedi da Gandarela” não tem outra potência?! O outro erro é a imitação atroz da pronúncia fafense. Se antes tivesse consultado estes cavalheiros, talvez se tivesse saído com algo mais credível do que o seu “sotaque rural” genérico.

² Admite-o alguém sem qualquer paciência para bairrismos, nem ao nível das nações.