Um Mundo Melhor


Vamos parar para pensar num mundo melhor. Um mundo um pouco menos feio e um pouco mais maravilhoso do que o nosso. Um mundo onde existe um filme dos anos 70 sobre um Zeppelin a combater pterodáctilos.
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Não é fácil pensar naquele que teria sido provavelmente – e não digo isto de ânimo leve – o melhor filme de sempre. É triste. É trágico. Juntamente com um documentário futuro 100% verídico sobre os fins trágico-cómicos de todos os actuais ministros, secretários-de-estado e ex-primeiros-ministros de Boliqueime (não a mesma coisa que o Presidente da República, calma, e por fim não quero dizer a morte de ninguém nem nada, etc. Não me processem), é o filme não existente que eu mais quero ver.

É importante ter em conta que se este filme tivesse ido em frente, haveria uma possibilidade de que o comandante do Zeppelin fosse o Drácula.

É triste não só porque o filme não existe, mas porque falar deste mágico não-filme é falar do fim da Hammer, essa fábrica de sonhos que nos deu tantas estórias em que homens de meia idade com ajudantes chamados “Paul” lutaram contra Dráculas, monstros de Frankentein, múmias, terrores do espaço, etc. É a história de como os estúdios Hammer passaram de moda e das suas belas, loucas tentativas de adiar o ocaso. O Crepúsculo dos Dráculas. Frankensteindämmerung.

Perante a mudança dos tempos nos loucos anos 70, a Hammer respondeu com um ataque bifurcado: de um lado, a tentativa de actualizar a mesma fórmula para um público novo, pegando no velho e adaptando às modas. Por exemplo, quando o ciclo Hammer começou, uma das coisas que se tornaram imagem de marca foi a proeminência (wink, wink) dos corpetes usados pelas actrizes, e a frequência com que elas (as actrizes) ficavam ofegantes; nos filmes novos, era mais ou menos a mesma coisa, mas sem corpetes. Daí obras como “Drácula 72”, em que o Drácula é ressuscitado no presente por um sujeito chamado Johnny Alucard (!); “The Vampire Lovers/A Paixão da Vampira” (cujos cartazes nos desafiam a provar a paixão mortal das NINFAS-DE-SANGUE!); e “Twins of Evil/As Servas de Drácula”, com duas Playboy Playmates como estrelas (“twins” tem vários significados neste título).

A outra abordagem foi tentar fazer filmes de aventuras num espírito mais pulp. Daí “Captain Kronos, Vampire Hunter”, sobre um espadachim imortal que caçava vampiros (mas que infelizmente se chamava Kronos e não Johnny Alucard, ou ainda melhor, Johnny Latrommi), e, claro, Zeppelin vs Pterodactyls, que seria uma adaptação de um serial (e já agora, uma amostra que podem ver online).

Esta segunda abordagem fazia sentido por duas razões. Primeiro, porque actualizar ficção dos anos 30-40 tinha sido a base do seu sucesso inicial. Tudo bem que o “Curse of Frankenstein/A Máscara de Frankenstein” e “Dracula” eram tecnicamente adaptados dos livros, mas a sua ligação aos filmes da Universal era inegável (basta ver a insistência do Drácula da Hammer em andar de capa de ópera), o que se torna óbvio pela altura que chegamos ao “Curse of the Mummy’s Tomb/A Maldição da Múmia” (que não tem uma base literária). A Hammer actualizou a fórmula, desde logo passando do preto e branco para cores – cores fortes, principalmente o vermelho. Depois, os tais corpetes. E claro, as suas estrelas: Peter Cushing, o homem cujo crânio era também uma arma branca, e Cristopher Lee.

Ah, Christopher Lee. O grande. Literalmente. E figuradamente. Actor, veterano de operações especiais da Segunda Grande Guerra, homem que sabe o som que um homem faz quando o matam com uma faca nas costas, músico heavy metal aos 90 anos, alguém que passou a maior parte da vida a ser Drácula, Jedi, Scaramanga! (o homem da pistola dourada), Monstro de Frankenstein, Múmia, Fu-Manchu, Saruman, pirata, Sherlock Holmes, o irmão mais esperto do Sherlock Holmes, Rasputin, Mefistófeles, Lúcifer, Morte (sim, essa) (nunca fez de Metatron – o anjo, não o transformer – o que é uma pena, porque se deus tivesse que escolher alguém para porta-voz, esse alguém seria o Christopher Lee). E um fã de Senhor dos Aneis. Claramente, o padrão pelo qual todos os homens devem ser medidos (e do qual, inevitavelmente, ficam aquém).

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Christpher Lee: Übermensch

A segunda razão é porque as aventuras pulp das revistas juvenis e dos seriais de cinema dos anos 30/40 estavam na moda. Há algumas provas disto. Uma delas é que o final da década ficou marcado por um monstro de bilheteiras chamado “Guerra das Estrelas” que era basicamente um filme do Flash Gordon (ou melhor, O Senhor dos Aneis, via Dune, disfarçado de Flash Gordon) – sendo o Flash um herói de seriais. E em segundo lugar porque Conan o Bárbaro (das revistas pulp) e outros que tais andavam a bombar nas páginas da Marvel.

E a Marvel sabia o que estava na moda. Nas páginas das suas BDs o Homem-Aranha combatia contra um ladrão com um skate-foguete que andava nas paredes, o Capitão América enfrentava um Roller-Derby fatal!, um demónio motoqueiro com uma mota feita de chamas do inferno (que também andava nas paredes) combatia nas estradas da América contra um homem com um capacete em forma de olho, e um herói blackspoitation que tinha sido preso injustamente e servido de cobaia em experiências na prisão que lhe tinham dado pele à prova de bala juntava forças com um branquelas com poderes de kung-fu obtidos numa cidade mágica no ‘Oriente’ através de um abraço fatal a um dragão e juntos formaram uma empresa de heróis-de-aluguer que a certa altura foi contratada por um chulo para combater um ciborgue espacial que tinha vindo para a terra em caça dos demónios do espaço que tinham destruído a sua civilização (porque a BD é um mundo maravilhoso). Como diria o Grant Morrison: “Super-Zeitgeist!”.

E agora que penso nisso, o Drácula também andava nas páginas da Marvel. Um Drácula com bigode à Don Juan que falava na terceira pessoa em diálogos bombásticos, ricos com megalomania e superioridade. Um Drácula que mais recentemente tinha um castelo na lua e um navio pirata mágico que voa pelo espaço. Um Drácula que roubou a namorada do Diabo. Um Drácula que podia perfeitamente ser interpretado pelo Christopher Lee, a rir-se num cemitério enquanto jura por Satanás que nenhum deus o impedirá de se erguer da sua sepultura, num futuro filme da Marvel.

Infelizmente, dos cerca de 100 filmes que a Marvel tem planeada para o resto das nossas vidas, nenhum deles se chama “Tomb of Dracula”. É pena. Teria sido provavelmente – e não digo isto de ânimo leve – o melhor filme de sempre.