Caled, o Grande


Uma pergunta muito habitual no mundo dos jogos é “Qual é a tua plataforma preferida?” Frequentemente, por alguma razão (cretinice, a razão é cretinicie.) respondo — “Esta:”

Dice_(typical_role_playing_game_dice)

“Mas isso nem Quake consegue correr!” (Diacritica)

Hoje em dia, o termo RPG sugere algo muito diferente; mas na sua forma original — os RPGs Pen & Paper, ou tabletop — são jogos de dados… Mais ou menos. Apesar de serem o símbolo máximo dos RPGs, são necessárias mais algumas coisas: papel, lápis, borracha, autênticos tomos literários cheios de regras e outra informação e, mais importante do que tudo isto, pessoas.

A coisa funciona de uma maneira muito simples, apesar das páginas e páginas de regras que tanto intimidam: cada jogador cria uma personagem. Uma pessoa adicional, conhecida como Game Master (GM) ou, no caso específico do famoso Dungeons & Dragons, Dungeon Master (DM) gere o mundo e os NPCs e serve de narrador. E, muito resumidamente, é isso: ficam com um jogo que se adapta aos gostos pessoais de cada um e com o potencial de se propagar por anos e anos.

Mas isto é só uma descrição do sistema que está por trás de um bom RPG. Como em qualquer jogo, o mais interessante não são as regras em si e sim o que acontece durante as jogadas! Vou dedicar alguns artigos a RPGs Pen & Paper e a histórias que se deram em campanhas em que participei e, com sorte, pode ser que vos incentivem  a experimentar estes jogos.


Zombies e espadas

Comecemos, então, pelo princípio: no longínquo ano de 1998 (penso eu), nós aqui do Ministério juntámo-nos para a nossa primeira campanha de Dungeons & Dragons, indiscutivelmente o RPG mais popular do multiverso. E foi nesta primeira campanha que surgiu também a nossa primeira história parva!

Note-se que nenhum de nós sabia muito bem o que estava a fazer. A preparação do DM resumiu-se a nós darmos-lhes o livro para as mãos e dizer “Toma. Vais ser o DM”. Claramente, só podiam sair coisas boas daqui. Depois de algum tempo a criar personagens e de darmos tempo ao Diogo de ele perceber mais ou menos como raio é que a coisa funcionava, lá começámos nós a nossa primeira aventura. Os detalhes sobre a história da campanha já foram em grande parte perdidos com o passar do tempo, mas o que interessa saber é que eles estavam a entrar num túmulo subterrâneo por alguma razão… Ah, e dá jeito saber quem era o Caled.

O Caled foi a minha primeira personagem. Um elfo, que nesta edição em particular de D&D era uma mistura entre guerreiro e feiticeiro. Este elfo tinha um passado particularmente grandioso porque eu queria a toda a força que ele fosse importante no nosso jogo: tinha sido um grande líder do povo élfico há centenas de anos, mas foi derrotado em batalha. Os seus inimigos julgavam que ele tinha morrido, mas Caled estava apenas num estase mágico do qual eventualmente voltaria como uma espécie de messias do seu povo. Isto não é, nem de perto nem de longe, aquilo em que pensamos quando ouvimos o nome dele; o Caled é lembrado principalmente como uma piada.

Tudo começou quando encontrámos uma espada dentro de um sepulcro. Ninguém a quis usar (afinal, nesta edição de D&D havia armas amaldiçoadas que podiam dar cabo de uma personagem), mas decidimos levá-la connosco. A espada ficou então guardada na mochila do Caled. Pouco tempo depois, demos de caras com o nosso primeiro inimigo: um zombie. Contrariamente ao que seria de esperar, o morto-vivo não nos atacou imediatamente: aproximou-se, quase como se fosse um animal curioso. Nós, inexperientes e meio amedrontados, começámos a discutir um plano. Perguntámos ao DM como é que o zombie se estava a comportar e ele responde “O zombie parece estar particularmente interessado no conteúdo da mochila do Caled.”

Os pensamentos “geniais” começam logo a surgir na cabeça do Caled (ou, mais adequadamente, na minha): Este não era um zombie normal! É um antigo guerreiro que aqui foi enterrado e está em buscar da sua espada mágica. Devolver-lha vai claramente resultar numa recompensa para nós. O facto de que a minha mochila estava completamente cheia de comida foi um facto que me escapou completamente na altura.

Ignorando por completo os protestos dos outros membros do grupo, o Caled aproxima-se cuidadosamente do zombie e coloca-lhe a espada na mão. A recompensa foi imediata: uma espadalhada nas trombas que quase o matou!

O encontro com o zombie não foi suficiente para dar cabo do Caled, mas sem dúvida que lhe desfez o ego. Muito a custo, o grupo lá conseguiu cumprir a sua missão no túmulo. Mas, à saída, deu-se o canto do cisne (leia-se do Elfo): convencido de que estava safo, o Caled avançou despreocupadamente em direcção à saída. Para azar dele, o caminho estava armadilhado. Não me lembro da natureza exacta da coisa, mas o que quer que tenha sido, matou o suposto messias élfico. Porém, a sua memória mantém-se nos dias de hoje sempre que os bardos cantam a história do imbecil que armou um zombie!


E foi esta a história do primeiro personagem a tornar-se famoso (ou melhor, infame) num dos nossos jogos.

E para aqueles entre vocês que queiram experimentar o jogo, aconselho-vos a fazer o download das regras básicas da 5ª edição de D&D. Na falta de dados, há também algumas alternativas online que vos podem resolver problema.

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