Oh, que tormento…


Depois de passar as últimas três semanas a debitar factos sobre personagens do Universo Marvel Cinematográfico, decidi fazer uma pausa no caminho para variar um bocado no tema. Afinal, ainda há mais três artigos nessa série em particular e não quero ficar typecast como o tipo dos super-heróis aqui no Ministério! E após esta introdução (suspeitosamente) cheia de referências a outros artigos aqui do site, deixem-me falar-vos um bocadinho da obra prima muito própria que é o Planescape: Torment.

Imaginem, por favor, que acabam de acordar completamente sem memória e perdidos num sítio  desconhecido. “Espera lá” — devem estar alguns entre vós a pensar — “Então este tipo está aqui a falar de uma «obra prima muito própria» e começa logo com clichés? Personagem principal sem memória, perdida num sítio desconhecido, etc, etc?” Ao que eu respondo: mas quantas vezes é que isso aconteceu e a personagem estava a acordar numa morgue cheia de zombies pacíficos e dá imediatamente de caras com uma caveira voadora que é, de certo ponto de vista, uma enciclopédia ambulante que também sabe andar à porrada (perdão, dentada)?

Torment é um jogo que aconselho plenamente a qualquer pessoa, desde que consiga apreciar jogos old-school, mas é sem dúvida particularmente interessante para fãs de RPGs clássicos e de Fantasia: é ao mesmo tempo uma carta de amor aos géneros e uma desconstrução hábil das suas tropes e clichés. A mais óbvia destas é, sem dúvida, a da morte da personagem: aqui a morte não só não é algo de permanente, como também uma ferramenta a ser usada e abusada. O Nameless One, a personagem principal, é um imortal que perdia a suas memórias de cada vez que era morto. Mas algo mudou com esta última incarnação e, sem essa desvantagem, morrer é uma óptima maneira de ultrapassar alguns obstáculos como, por exemplo, passar por uma armadilha letal e impossível de desarmar montada por um (aparente) desconhecido que nos quer mal.

Com coisas como Deusas que não querem ser veneradas e punem quem tenta, demónios obrigados a praticar o bem devido a um “contrato com o diabo” que correu mal e uma succubus casta que é a matrona de um bordel dedicado à luxúria intelectual em vez da carnal, Planescape: Torment retorce aquilo que estamos habituados a ver na ficção deste género e mostra-nos que até mesmo os conceitos mais batidos se podem voltar a tornar interessantes se mostrados sobre uma luz diferente.

E mais não digo, para não estragar o jogo a quem tiver o bom senso de o jogar. Mas deixo-vos com duas sugestões, caso realmente o façam: cuidado com os anjos, e respondam a perguntas de acordo com a vossa natureza!


Para quem tiver interesse, o Planescape: Torment pode ser comprado no GOG.com

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